Coluna: O Bolsonarismo errático contra tudo isso que está aí, de Direitos Humanos ao próprio Governo

O bolsonarismo é um movimento antidemocrático, mas, principalmente, acéfalo, justamente porque seu líder não detém um projeto, a não ser o poder pelo poder, buscado sempre de modo errático. Se há três anos esta situação tem sido fatal para os Direitos Humanos e para a Democracia, pode também o ser para o próprio Governo. Senão, vejamos:

1) Bolsonaro, no último 07 de setembro, atentou contra a Democracia, incorrendo em crime de responsabilidade, ao dizer que não acatará sentença do Ministro Alexandre de Moraes (ou, na realidade, qualquer decisão judicial que o contradiga). Como nos discursos de qualquer liderança – ainda mais de âmbito nacional –, suas falas legitimam atos descentralizados, sobre os quais ele tem pouco ou nenhum controle.

2) Portanto, para ajudar o seu “mito” na queda de braço contra o sistema e tudo isso que está aí, os caminhoneiros deflagram uma greve. “É para trancar tudo”, determina o caminhoneiro Zé Trovão, exigindo que o impeachment do ministro do STF seja analisado.

3) Reflexos negativos para todos são esperados. Mais inflação, desabastecimento (quiçá, nacional) e paralisação de serviços. E, a depender da extensão desta greve, os reflexos podem ser tão ou mais graves do que os de 2018.

4) Diante disso, o que Bolsonaro faz? Grava um áudio para os caminhoneiros, pedindo a liberação das estradas, porque a ação “prejudica a economia, principalmente, os mais pobres”. Finaliza dizendo: “Deixa com a gente em Brasília aqui e agora […] A gente vai fazer a nossa parte aqui e vamos buscar uma solução para isso, tá ok?”

5) Mas o que os caminhoneiros entendem? Que Bolsonaro não poderia apoiar a greve publicamente, mas, em segredo, seria exatamente isso que ele quer. Afinal, em 04 de agosto, ele já afirmava: “Olha, eu jogo dentro das quatro linhas da Constituição, e jogo, se preciso for, com as armas do outro lado”. E ainda, em 07 de setembro, disse: “Não queremos ruptura, não queremos brigar com Poder algum, mas não podemos admitir que uma pessoa coloque em risco a nossa liberdade”. E esse “mas” legitima justamente a ruptura e a briga da frase anterior, que é o buscado pelos caminhoneiros. 

Em verdade, Bolsonaro é a concretização do duplipensar orwelliano, assim definido pelo autor, na obra 1984: ato de “defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas”. É como o indivíduo que diz “eu não sou racista, mas…”. Bolsonaro foi quem chamou esta greve, ainda que não o tenha feito de modo explícito. Tal como legitimou atos homofóbicos, feminicídios e demissões em massa, ainda que, novamente, não o tenha feito de modo (tão) contundente. Os reflexos de um discurso impensado são também impensáveis… até ocorrerem.

Assim, as consequências do bolsonarismo errático são tão ou mais preocupantes que o seu caráter autoritário. Por não ter uma agenda definida, ou mesmo um discurso uníssono, este movimento defende qualquer coisa que se encaixe na luta “contra tudo isso que está aí”. E por ninguém saber, afinal, o que significa “isso que está aí”, não fazemos ideia de qual ato tresloucado poderá ser cometido por um bolsonarista ou mesmo quem ou o quê será atingido – na verdade, nem Bolsonaro o sabe. A metralhadora giratória governista é a antítese da democracia, pois, além de não dialogar com o povo em termos plurais, não possui uma mínima previsibilidade – e isto o mercado não tolera, haja vista a queda considerável da Bolsa de Valores depois do fatídico 07 de setembro.

Com a paralisação dos caminhoneiros, a economia brasileira, que já está afundando, vai direto para o buraco. E se tem uma coisa que Bolsonaro sabe é que com a economia no vermelho, o seu (des)governo perde o pouco de sustentação que lhe resta. Estamos no limiar do apoio ao bolsonarismo, que, é verdade, ainda detém 1/4 da aprovação popular, mas cuja curva é descendente.

Assim, ou a greve fará sua aprovação estacionar no patamar atual ou piorar de vez, mas não tem o condão de fazê-la melhorar. Pois, se a paralisação parece demonstrar uma reação que poderia insuflar a base bolsonarista, a verdade é que seus efeitos econômicos deletérios pesam no bolso de todos os brasileiros, inclusive no da elite – notadamente, a elite agropecuária, que não conseguirá sequer exportar seus produtos. E a carne, que você já não compra há semanas, vai evaporar de vez do mercado, junto com o ovo e o osso de boi.

Contudo… pode ser que a greve já esteja acabada amanhã, e a economia não vai afundar (ainda mais). Ainda assim, um reflexo há de se concretizar, qual seja, o aumento na desaprovação do governo, pois Bolsonaro passará ser visto como traidor do próprio bolsonarismo, o que pode enraivecer o Presidente a ponto de ele tentar um autogolpe, ou fazê-lo perceber que não há mais qualquer base de sustentação para tanto.

Mas, pelo menos, o PT não está fazendo do Brasil uma Venezuela, não é mesmo? Porque Bolsonaro já faz isso sozinho. O culpado pela greve dos caminhoneiros é o próprio governo, e pode ser que na próxima semana seja a Venezuela a ter receio de se tornar um Brasil.

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