Palestra de abertura do 9º Colóquio Mulheres e Sociedade discutiu sobre como as mulheres e grupos minorizados são vítimas de ataques digitais e as formas de resistência neste cenário
Palestrantes do painel de abertura do 9º Colóquio Mulheres e Sociedade. Foto: Maria Gallinea
Nesta quinta-feira (03), o painel “Misoginia e discursos de ódio no ambiente das redes” marcou o início do 9º Colóquio Mulheres e Sociedade. Com o tema “Corpos sob ataque: misoginia, racismo e violência a grupos minorizados nas redes”, o evento reúne apresentações de painéis, trabalhos acadêmicos apresentados em modalidades online e presencial, e oficinas. A programação presencial está sendo realizada exclusivamente na sede central da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).
A palestra de abertura foi mediada pela professora Karina Janz Woitowicz, docente do curso de Jornalismo da UEPG, e contou com a participação das palestrantes Lola Aronovich, professora universitária, pedagoga, blogueira e ativista feminista; Zilda Mara Consalter, professora do curso de Direito da UEPG e autora do livro “Direito ao Esquecimento: Proteção da Intimidade e Ambiente Virtual”; e Eloni dos Santos Perin, professora da rede estadual de ensino do Paraná e doutora em Gestão da Informação.
Apesar das formações acadêmicas e profissionais diversas, as palestrantes convergiram em um ponto crucial: a crescente onda de misoginia nas redes sociais digitais têm impactos profundos na qualidade de vida das mulheres e de grupos minorizados, não apenas no Brasil, mas em diversas partes do mundo. Os ataques digitais direcionados a essas mulheres, muitas vezes baseados em ódio e desinformação, geram consequências devastadoras, afetando desde a saúde mental até a integridade física e emocional das vítimas.
Durante a mesa de debates, Lola Aronovich destacou como as redes sociais, em um contexto de crescente polarização e falta de moderação eficaz, funcionam como terreno fértil para o espalhamento de discursos de ódio. “A gente tem que continuar lutando, não pode se render a eles, a gente sempre incomodou e a gente ficou exausta!”, afirmou Lola, fazendo referência ao impacto dos governos que violentam as minorias. Para ela, a misoginia digital é uma forma de violência estrutural que perpetua desigualdades históricas e fragiliza as conquistas sociais das mulheres.
Zilda Mara Consalter, por sua vez, enfatizou a importância do “direito ao esquecimento” como um mecanismo de proteção da intimidade no ambiente virtual. “O direito ao esquecimento é um direito para o futuro, para que lá na frente, possamos ter controle sobre o que diz respeito apenas sobre nós, e está na rede violando nossos direitos pessoais”, explicou. Zilda também apontou a maneira como as redes sociais amplificam os danos causados por ataques: “As redes visibilizam e potencializam as ofensas!”. Ela defendeu, ainda, que a legislação brasileira seja mais rígida em relação à responsabilização das plataformas digitais por permitir que conteúdos abusivos circulem sem o devido controle.
Eloni dos Santos Perin trouxe para a discussão o impacto da misoginia digital sobre mulheres periféricas e negras. Ela apontou como as interseções entre gênero, raça e classe social geram um cenário ainda mais desafiador para mulheres que, além de enfrentarem o machismo, são alvos de racismo e discriminação. “Existem influencers que se autodeclaram misóginos, isso é muito perigoso, porque eles servem como modelo para outros”, disse Eloni, alertando sobre a influência de figuras públicas na propagação de discursos de ódio. “A resistência precisa ser estratégica, e as mulheres precisam estar empoderadas com informações que as ajudem a lidar com os ataques. Isso envolve desde a educação digital até o fortalecimento de redes de apoio e iniciativas políticas que combatam a violência de gênero”, argumentou.
A reflexão sobre as formas de resistência foi central no painel. Karina Janz Woitowicz, mediadora do debate, trouxe à tona a importância da conscientização coletiva e do ativismo digital como ferramentas poderosas para a resistência. “Não basta apenas denunciar os ataques, é preciso mobilizar a sociedade e pressionar as plataformas para que adotem práticas mais rigorosas contra discursos de ódio e misoginia”, afirmou.
O 9º Colóquio Mulheres e Sociedade segue com sua programação até a sexta-feira (4), reunindo acadêmicas, ativistas e profissionais que compartilham o compromisso com a luta pela igualdade de gênero e contra a violência nas redes sociais digitais.
Texto por Malu Dip e Maria Gallinea