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Democracia amadurece e é celebrada internacionalmente

Instituído pela ONU em 2007, o Dia Internacional da Democracia é celebrado a cada ano em 15 de setembro. 

Profª Drª Fernanda Cavassana
Créditos: Cartunista Miguel Paiva

Costumo dizer sempre para meus estudantes que evoluímos vagarosamente. Cada avanço parece resultar da pequena equação de dois passos à frente, um para trás. Há períodos marcados por progressos que se seguem de outros, ainda bem que mais curtos, retrógrados, usualmente reacionários ao progresso anterior, recém alcançado. Assim evoluímos progressivamente enquanto sociedade. Assim também evoluímos enquanto democracia e para institucionalizar essas evoluções.

As democracias modernas só se consolidaram graças às instituições, que tendem a defender não apenas valores como a liberdade, mas também prezar pela real equidade, garantindo que os direitos humanos e cidadãos sejam ampliados e acessíveis a todes. E as nossas, instituições democráticas do Brasil, têm se mostrado fortes, acima de interesses individuais ou comportamentos autocráticos de determinados atores ou grupos políticos. Isso deve ser comemorado, este mês, hoje e todos os dias.

A institucionalização pode ser compreendida como o processo que cria estabilidade e legitimidade a um conjunto de princípios duradouros, estipulados para regular a vida social e política. Trata-se, portanto, de regras, papéis, funções e ações conhecidas pela sociedade e pelos poderes e áreas. É aquilo que é esperado, convencionalmente normalizado para se ter uma estrutura estável. Por isso, nossas instituições não são apenas nossos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, ou a Imprensa e Partidos Políticos, embora estes sejam exemplos mais palpáveis e visíveis. As eleições também são instituições da nossa democracia, assim como a nossa Constituição.

Ideologicamente, a Democracia é um projeto de ordem social que visa garantir a distribuição do poder e o tratamento igualitário de seus cidadãos e cidadãs. Para tanto, define direitos e deveres, bem como define como se dará a distribuição da autoridade política para organizar e tornar possível essa sociedade. Enquanto um governo de muitos, espera-se que a soberania seja delimitada pelo povo, embora seja necessário instituir papéis, ritos e funções para que isso se efetive. Por isso, também, somos uma democracia representativa, temos diferentes representantes em diferentes áreas para representar o povo, bem como meios de participar e garantir a manifestação da vontade popular. 

Portanto, a participação cidadã também é relevante para a democracia. Temos formas mais institucionais de participação, como o voto, mas também outras formas relevantes de contribuir com a política democrática diariamente. Como monitorar as instituições por meio de seus canais de comunicação ou colaborar com o debate público, por meio de informações e opiniões.  Com a Internet, por exemplo, temos a possibilidade de participar de canais mais oficiais como o e-democracia ou acompanhar os perfis em páginas oficiais das instituições, órgãos, coletivos e atores políticos individuais. Iniciativas da sociedade civil também contribuem com o debate democrático qualificado, como o portal Elos, por exemplo.

Contudo, o princípio democrático de liberdade de expressão nunca deve ser confundido como uma autorização de se manifestar sem respeito às regras, às pessoas, à democracia. Ou cometer crimes como calúnia, racismo, homofobia, violências verbais ou pedidos antidemocráticos de retorno à ditadura. O que tem se visto em grau elevado é um uso excessivo e criminoso da comunicação on-line, para ampliar a desinformação e propagar discurso de ódio, inclusive atentar contra nossa democracia. E é isso que tem que ser combatido, pelos meios legais e democráticos. Para isso, nós temos a nossa Constituição.

A Constituição brasileira de 1988 representou o restabelecimento da cidadania e soberania popular no país, que comemora 40 anos de democracia desde o fim da ditadura militar, em 1985. Ela é a instituição responsável por delimitar os direitos fundamentais e a Justiça do país, além de estabelecer as regras que garantam a separação e autonomia dos Poderes de nosso Estado. A atuação independente do Executivo, Legislativo e Judiciário é, pois, relevante para equilibrar e contrapor o Poder e impedir que um se sobressaia sobre os demais. E, ressalte-se, todos eles exercem papéis centrais na garantia de defesa à democracia.

Este ano, o grande exemplo, do Brasil para todo o mundo, é o julgamento de um ex-presidente pelo Supremo Tribunal Federal pelos crimes de organização criminosa, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano contra o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado. Independentemente do resultado, trata-se de uma resposta institucional relevante, de contrapeso de poder em defesa da nossa democracia. 

Jair Bolsonaro é um político brasileiro que, corriqueiramente, atentou contra os Direitos Humanos. Graças à característica de memória das plataformas e acervos digitais é possível recuperarmos e termos acesso a diversas entrevistas, trechos de programas de televisão e rádio, falas no Congresso Nacional – onde esteve por três décadas – em que, explicitamente, Bolsonaro ataca cidadãos e instituições, especialmente as minorias.

Ainda assim, foi eleito Presidente da República Federativa do Brasil em 2018 e esteve à frente do país até 2022, quando perdeu o segundo turno das eleições por uma margem muito pequena de diferença de votos válidos. Ao longo de seu mandato,  incluindo o período da pandemia de Covid-19, enquanto líder e maior representante político do Brasil, manteve comportamentos antidemocráticos, como descaso ataque a minorias, às instituições, a Ciência, a jornalistas e aos veículos de imprensa. Como mostra sua condenação recente, chegando a orquestrar um golpe contra o Estado Democrático de Direito na tentativa de não sair do poder.

A grande visibilidade do julgamento de um ex-presidente e de várias outras pessoas que detinham cargos importantes no primeiro escalão de seu governo se deve por diferentes motivos, é claro. Contudo, ressalto que a maior relevância desse acontecimento se deve a um julgamento contra um Golpe de Estado desde a redemocratização. Isso é histórico, porque demarca a primeira vez em que um ex-presidente e militares de alta patente foram julgados por atentar contra o Estado Democrático de Direito no Brasil. Vale ressaltar que todo o processo de julgamento seguiu os ritos constitucionais, incluindo o amplo direito à defesa.

A condenação de Bolsonaro e de seus aliados foi consequência de um ataque constante desse grupo às instituições democráticas – incluindo aí as eleições e o Poder Judiciário – e arquitetado por meio de diferentes estratégias ao longo dos últimos anos. Exploraram, inclusive, o aparato estatal, por meio de diferentes órgãos e cargos. O ataque às sedes das instituições em Brasília, em 08 de janeiro de 2023, não foi isolado, mas consequência de estímulos constantes para que se tentasse efetivar o maior golpe contra a Constituição, os três Poderes e o resultado das eleições desde a redemocratização.

Enquanto país, conquistarmos essa condenação é uma vitória histórica das nossas instituições democráticas. Responsabilizar diretamente pela primeira vez no Brasil, agentes do Estado que atentaram de forma sistemática contra a democracia é provar que ninguém está acima da lei. É reconhecer um dos princípios mais legítimos da nossa democracia, que é a igualdade. O que não vale só para os direitos, mas também deveres cidadãos. 

Sobre a autora:

Fernanda Cavassana é Doutora em Ciência Política (UFPR), Jornalista (UEL), Professora de Humanidades Digitais no curso de Comunicação e Multimeios da UEM. cavassanaf@gmail.com

Literatura periférica: a palavra como ato de existência

Rede Periferia Brasileira de Letras já mapeou 292 coletivos em nove estados e no DF; 96% atuam com direitos sociais e 65% priorizam a pauta antirracista em territórios de maioria negra

Por: Maria Gallinea
Arte por: Maria Gallinea

  No Brasil contemporâneo, onde as desigualdades estruturais ainda determinam o acesso à cultura, a literatura periférica emerge como um movimento coletivo de reparação, resistência e promoção dos direitos humanos. A Periferia Brasileira de Letras (PBL) é um exemplo concreto desse processo: um projeto nacional que reúne centenas de coletivos literários atuantes nas periferias urbanas e comunidades rurais, transformando a palavra em ferramenta de pertencimento e dignidade.

  Criada em 2020, a PBL é uma rede formada por bibliotecas comunitárias, saraus, slams, rodas de leitura e grupos autônomos de escrita criativa, com presença em todas as regiões do país. A coordenação está sob responsabilidade da Cooperação Social da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com o Ministério da Cultura. Desde então, o projeto se consolida como ponte entre a cultura popular e o Estado, articulando ações que reconhecem a criação literária como uma forma legítima de acesso à cidadania.

Literatura como direito humano

  A Declaração Universal dos Direitos Humanos, em seu artigo 27, garante a todas as pessoas o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade. No entanto, em muitas regiões do país, o acesso à literatura segue restrito por razões econômicas, raciais e territoriais. A atuação da PBL parte justamente do reconhecimento de que a literatura não é privilégio, mas sim um direito básico e, como tal, deve ser garantido de forma ativa pelo poder público e pelas redes da sociedade civil.

  A rede busca fortalecer esse direito nas periferias urbanas e áreas rurais por meio de ações educativas, produção de livros e zines, articulação de políticas públicas, formação de mediadores de leitura e incentivo à criação autoral. A prática literária, nesses contextos, vai além do estético: é uma linguagem de afirmação, escuta e transformação social.

 

Pesquisa revela o tamanho da rede e suas urgências

  Em março de 2025, a PBL lançou a segunda edição da Pesquisa Nacional de Coletivos Literários nas Periferias Brasileiras, que ouviu 292 grupos de nove estados e do Distrito Federal. A pesquisa foi conduzida com metodologia mista: entrevistas qualitativas em profundidade e um questionário online de 40 perguntas.

  Os dados revelam que 64% dos coletivos literários atuam em territórios de maioria negra, e que a pauta antirracista é central para 65% deles. Além disso, 96% realizam ações com foco em direitos sociais, como educação, juventude, justiça racial, igualdade de gênero e memória comunitária.

  As formas de atuação mais comuns incluem bibliotecas comunitárias (26%), saraus (21%), rodas e clubes de leitura (9%) e batalhas de poesia falada, como os slams (9%). Esses espaços se caracterizam por serem autogestionados, com forte enraizamento territorial e ações voltadas para o acesso direto da população local à leitura e à escrita.

  Apesar da riqueza e da força cultural dos coletivos, 64% não possuem CNPJ, o que limita o acesso a recursos públicos e editais culturais. Ainda assim, 60% conseguiram acessar algum tipo de financiamento nos últimos dois anos, enquanto 30% afirmaram nunca ter conseguido nenhum apoio institucional.

  Esses dados revelam uma contradição que é também uma denúncia: os espaços que mais promovem os direitos culturais nos territórios periféricos são frequentemente os menos reconhecidos e apoiados pelas estruturas formais de financiamento público.

Cultura como cuidado e política pública

  Um dos achados mais relevantes da pesquisa é o entendimento coletivo da literatura como forma de cuidado comunitário. Para os grupos participantes, a leitura e a escrita estão diretamente associadas ao bem-estar emocional, à construção da identidade e à saúde mental, fatores que são frequentemente negligenciados em políticas públicas voltadas às populações em situação de vulnerabilidade.

  A prática literária, nesses espaços, funciona como uma forma de mediação de conflitos, fortalecimento de vínculos afetivos e produção de pertencimento. Oficinas de escrita são utilizadas como dispositivos de escuta ativa de crianças, adolescentes e idosos. Saraus funcionam como fóruns públicos de memória, crítica social e articulação comunitária. A leitura, nesses territórios, cumpre uma função terapêutica e formativa.

  A atuação da PBL dialoga, portanto, com um conceito ampliado de saúde e de política pública, reconhecendo que a produção simbólica e o acesso à arte são fundamentais para garantir os direitos humanos em sua totalidade, incluindo os direitos à educação, à cultura, à liberdade de expressão e à identidade.

Reconhecimento institucional e novos caminhos

  Em 2024, durante o 1º Encontro Nacional da Periferia Brasileira de Letras, realizado em Salvador (BA), mais de 100 representantes de coletivos literários se reuniram para debater as políticas públicas de cultura e propor diretrizes ao Ministério da Cultura. O evento incluiu uma audiência pública na Assembleia Legislativa da Bahia e a construção de uma carta-compromisso com propostas de incentivo à literatura comunitária.

  As principais demandas apresentadas foram: redução da burocracia para formalização de grupos culturais, criação de editais específicos para coletivos periféricos, apoio à manutenção de bibliotecas comunitárias, valorização de mediadores de leitura e reconhecimento da literatura como política de base territorial.

  Esse diálogo institucional aponta para uma virada importante: o reconhecimento dos agentes culturais periféricos como sujeitos de direito, produtores de conhecimento e protagonistas de uma nova política pública da palavra.

Uma nova narrativa para o país

  A literatura periférica brasileira, como demonstram os dados da PBL, não é apenas resistência, é também reinvenção. Ela constrói outras formas de narrar o país, outras possibilidades de existência e outras linguagens para falar da dor, da alegria, da violência e da beleza que atravessam os territórios populares.

  Mais do que denunciar ausências, essa literatura afirma presenças. Ela dá forma a uma memória coletiva que, por muito tempo, foi silenciada pelos espaços oficiais de cultura e educação. Hoje, no entanto, esses coletivos escrevem a própria história e, ao fazê-lo, ampliam os sentidos da democracia.

  Promover o direito à literatura nas periferias não é um gesto de inclusão simbólica. É um compromisso ético com a justiça social, com o reconhecimento da diversidade e com o futuro do país. Como mostram os números, as palavras escritas nas margens não apenas dizem, elas fazem.

Organização Irmã Scheilla oferece apoio a pessoas em vulnerabilidade

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Bazar da Instituição Irmã Scheilla, localizado na Rua do Rosário, nº 556, no Centro. Foto: Pietra Gasparini
                       Lorena Santana e Natália Almeida 

 

A Organização Espírita Cristã Irmã Scheilla atua há mais de 70 anos na cidade de Ponta Grossa com atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade social, por meio de doações de roupas e refeições como almoço e jantar. A entidade teve início com a participação de mulheres que se reuniam para a confecção de roupas de bebê. Atualmente, são atendidas cerca de 150 famílias por mês.

   A casa conta com um brechó para a venda de roupas, que é a principal fonte de renda da instituição. A presidente explica que o brechó contribui com materiais para os outros brechós da região. Tem pessoas que compram por um preço abaixo e vendem em outros lugares, então ajuda na sobrevivência das famílias também. “As roupas em melhores condições a gente vende por dez, cinco reais, depende do material. Mas para quem bate na porta, a gente doa, quem vem pedir, a gente doa”, relata.

   De acordo com a assessoria da Prefeitura de Ponta Grossa, a estimativa é de que entre 100 a 120 pessoas estejam efetivamente em situação de rua na cidade. Deste total, mais de 91% são homens. No inverno, essa é a população que mais sofre o impacto das baixas temperaturas. A mais baixa registrada no município em 2025 foi de -2,3°C, medida em 25 de junho, de acordo com o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar). Essa temperatura foi registrada durante uma onda de frio que atingiu o estado do Paraná, causando geadas em várias regiões.

   Neste ano, foram registradas pelo menos três mortes de pessoas em situação de rua devido ao frio extremo na região Sul do Brasil, principalmente devido à massa de ar polar que atingiu a área.

Doações

    Com a intenção de assistir as pessoas em situação de rua, a instituição recolhe doações da comunidade e as distribui para quem precisa. A campanha é contínua e permanece aberta durante o ano todo. A presidente do local, Maria Etelvina Madalozzo, enfatiza a necessidade de doações de agasalhos masculinos. “Normalmente, recebemos um número muito maior de roupas femininas, o nosso principal apelo é por agasalhos masculinos, especialmente por ser o perfil de pessoas que mais nos procuram”, explica. O horário de atendimento é de segunda a sábado pela manhã, a partir das 9 horas. À tarde, o atendimento inicia às 16 horas durante a semana e no sábado a partir das 17 horas.

 

Instituição Irmã Scheilla atua no combate à insegurança alimentar

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                           Amanda Grzebielucka, Bruna Sluzala e Pietra Gasparini
As refeições são feitas e servidas por voluntarios. Foto: Pietra Gasparini

     A instituição Irmã  Scheilla, organização espírita e beneficente que atua há 70 anos em Ponta Grossa, faz parte do Conselho de Segurança Alimentar da cidade e atua no combate à insegurança alimentar distribuindo refeições diariamente. De segunda-feira a sábado são servidos café da manhã e refeição da tarde, distribuindo cerca de  500 pratos de comida por dia. O café da manhã é servido à partir das 9h30 e as refeições da tarde são servidas às 16 horas. Aos sábados, o café é às 9h e à tarde o atendimento é às 17 horas.

    As refeições oferecidas pela associação são feitas a partir de alimentos doados pela população, por empresas privadas e mercados, além de três produtores rurais que doam regularmente. “O  pessoal elogia muito a comida daqui. A gente fica feliz,  sabe que é feito com carinho, é feito com amor, é como se fosse dentro da casa deles. Não é porque é doação que os ingredientes não são frescos, é tudo de ótima qualidade”, conta Maria Etelvina, presidente da instituição Irmã Scheilla.

     Ela explica que os alimentos variam de acordo com a equipe que está cozinhando, então tem uma variedade. “Tem dias que tem arroz, feijão, carne, salada, em outros é canja, ou quirera com suan, tem dia que é feijoada, macarronada com carne moída. As equipes escolhem o que vão fazer em cada dia da semana“, relata, informando que a proteína sempre está presente.

    Quem faz a compra dos alimentos, decide o cardápio e a cozinha são as equipes de voluntários que se dividem entre os dias da semana. Etelvina ressalta que além do voluntariado e a doação de alimentos, a  população pode ajudar com a doação em dinheiro. “A doação de dinheiro ajuda a comprar o gás e a manter as despesas como luz, água, manutenção. Às vezes é uma torneira que estraga, panela que acaba furando. Então, a gente precisa trocar os utensílios”, explica.

   A presidente revela que agora que a instituição faz parte do Conselho de Segurança Alimentar da Prefeitura, irá receber regularmente frutas e verduras para as refeições, e isso ajuda a criar uma rotina, tendo garantia desses alimentos. 

Insegurança alimentar atinge um em cada quatro lares brasileiros

    Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) sobre segurança alimentar divulgados pelo IBGE, em 2023, 27,6% dos lares brasileiros lidaram com algum grau de insegurança alimentar. Além disso, 9% dos  domicílios enfrentavam o problema de forma moderada ou grave. De acordo com o levantamento, a fome atingiu o dobro dos lares liderados por pessoas negras, totalizando mais de 69%. 

    A insegurança alimentar é caracterizada pela dificuldade de acesso regular a alimentos em quantidade e qualidade suficientes para suprir as necessidades nutricionais de uma pessoa ou família. Esse problema pode variar entre níveis leves, moderados e graves. A nutricionista Gabrielle Jansen explica que a insegurança alimentar, além da variação entre os níveis, também impacta de formas diferentes em cada faixa etária. Para ela, uma pessoa adulta é afetada de forma diferente de uma criança, que sofre com a questão do desenvolvimento e da inclusão social. “A criança, então, vai ter um baixo nível de desempenho, não vai crescer, não vai se desenvolver da forma como deveria”, observa.

    Ela reforça que o adulto, além de sofrer com a falta de nutrientes, também sofre socialmente, “A pessoa vai estar mais suscetível às doenças e a partir do momento que isso afeta o sistema nutricional, ela não vai ter energia e desempenho. A parte de inclusão social, às vezes, de colocação no mercado de trabalho, também vai afetar essa pessoa”. Gabrielle ainda alerta que a situação de insegurança alimentar se agrava ainda mais em idosos, “O Idoso já é mais suscetível a algumas coisas, já tem maior depressão de massa magra, então com isso ele vai se agravar cada vez mais”, expõe.

    Segundo a nutricionista, a pessoa em insegurança alimentar tem deficiência de todos os micronutrientes que estão presentes na proteína de origem animal e vegetal. “Elas vão ingerir bastante carboidrato, que é o mais abundante e de menor custo, carboidrato e gordura.  Quando você pensa em proteína, tanto vindo de origem animal quanto de vegetal, ela se torna um pouco mais cara, então a pessoa já não vai ter tanto acesso”.

    Além disso, pensando nos micronutrientes, presentes principalmente em frutas, verduras e legumes, o consumo também se torna mais restrito devido aos custos. A nutricionista ressalta que em Ponta Grossa um meio de conseguir acessar alguns nutrientes é na Feira Verde, que é um programa da Prefeitura que troca materiais recicláveis por alimentos e outros benefícios.

 

Empreendedorismo feminino cresce no Brasil, mas enfrenta barreiras culturais e desrespeito

Perspectiva das mulheres revela os desafios diários como empreendedoras

Por Isabelli Cetra Piva, Leonardo Correia Lima e Maria Fernanda Andrusko.
Mulheres empreendoras fortalecem a economia local, gerando renda e oportunidades em diversos setores. Foto: Leonardo Correia.

O empreendedorismo feminino tem apresentado dados de crescimento no Paraná. A partir de informações divulgadas pela Comunidade Sebrae, há o indicativo de que 44% dos negócios abertos em 2021 foram liderados por mulheres. Atualmente, elas representam 46% do total de empresários do estado. Esses percentuais dizem respeito tanto à criação de novos negócios quanto à liderança em empresas já existentes. O movimento tem se expandido, impulsionado por fatores como: busca por independência financeira, flexibilidade e a necessidade de maior representatividade feminina no mercado de trabalho. As mulheres empreendedoras trazem novas perspectivas e abordagens para os negócios e estão mais presentes em áreas do setor de serviços como alimentação, beleza e moda (44,2%), seguido pelo comércio (18,7%) e indústria (17,1%).

 As dificuldades enfrentadas pelas mulheres no empreendedorismo são acentuadas por barreiras adicionais relacionadas às normas culturais enraizadas na sociedade. Segundo estudo do Governo Federal, essas barreiras incluem preconceitos de gênero, acesso limitado a financiamento e redes de apoio, o que dificulta a formalização e o crescimento de seus negócios.

   Normas e costumes tendem a menosprezá-las, já que desde a infância o direcionamento é para as tarefas domésticas. Equilíbrio entre a família e o comércio, ou talvez outra profissão, o apoio nas tarefas de seus filhos, cuidar do pai ou mãe doente, lidar com dois ou mais âmbitos de trabalho. Elas são afetadas pelo cansaço, estresse e tempo insuficiente para se dedicarem aos negócios. 

Elizeia Maria Sinhori, empreendedora em um comércio de vila e psicóloga em Ponta Grossa, relatou dificuldades em estar neste lugar enquanto mulher, enfrentando o desgaste da jornada dupla e as intercorrências do atendimento direcionado ao público masculino. “A gente é bastante desrespeitada no sentido de estar trabalhando e eles não entenderem que a simpatia da gente não é safadeza”, comenta. Elizeia, que está nessa jornada dupla há um ano e meio, ainda ressaltou a ideia de que os comércios têm suas regras e que o público geralmente não as segue, levando ao assédio e a uma falsa ideia de proximidade e intimidade, o que gera momentos constrangedores e desconfortáveis.

Cimeia dos Santos, dona de uma lanchonete na cidade de Carambeí, relatou que o financeiro do estabelecimento comercial, a carga horária estendida até altas horas e a supervisão sobre pessoas embriagadas são os maiores desafios que ela encontrou na profissão. Cimeia alegou que a independência financeira e a confiança em seu trabalho é significativo para uma mulher empreendedora em um num espaço comunitário. “É essencial mostrar que uma mulher tem força para fazer o que pode sozinha, sem depender de um homem e poder ter suas próprias coisas”. A empreendedora aponta que a coragem e a assistência são importantes para a entrada das mulheres na profissão.

 

Dados do ano de 2022, fornecidos pela Comunidade Sebrae, apontam que no Brasil, 49% das mulheres empreendedoras são brancas, 48% são negras e apenas 2% são amarelas e indígenas. Em relação à idade, 67% têm entre 35 e 64 anos, 68% delas têm ensino médio completo ou superior completo. Também, os dados do Sebrae indicam que o Brasil é o 7° país com maior número de empreendedoras do mundo, com 32 milhões de mulheres na função.

Segundo Elizeia, a dica para quem quer empreender é: “O primeiro passo é começar”. Foto: Leonardo Correia

O Banco da Mulher Paranaense é um órgão do Governo do Estado, criado para estimular o empreendedorismo feminino. Ele oferece menores taxas de juros para as linhas de crédito de pequenos negócios e empresas que tenham mulheres como proprietárias ou sócias. O benefício possibilita a realização de investimentos como obras de construção, reformas, aquisição de maquinário, equipamentos, mobiliário, layout e capital de giro, para a formação de estoques de manutenção do empreendimento. O valor do crédito varia conforme o tempo do comércio. Para entrar com o pedido de crédito basta acessar o site da instituição

Além do Banco da Mulher Paranaense, outras iniciativas fortalecem o empreendedorismo feminino. O Prêmio Mulher de Negócios, realizado periodicamente pelo Sebrae, reconhece e valoriza empreendedoras que se destacam em seus segmentos, com inscrições abertas em seu site.

Câmara Municipal de Ponta Grossa recebe debate e lançamento de cartilha sobre violência intrafamiliar

No Brasil, 37,5% das mulheres sofreram violência intrafamiliar nos últimos 12 meses, segundo a pesquisa Visível e Invisível (Datafolha/FBSP, 2025)

Por Maria Gallinea, Bruna Sluzala, Maria Eduarda Leme, Malu Dip e Bebel Costalonga 
Participantes da discussão sobre violência intrafamiliar compartilham experiências pessoais acerca do tema/ Foto: Maria Gallinea

A Câmara Municipal de Ponta Grossa foi palco, na tarde de 8 de agosto, do encerramento da 1ª Semana de Enfrentamento à Violência Intrafamiliar, organizada pelo Núcleo de Estudos da Violência Intrafamiliar (Nevin) da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). A programação de fechamento incluiu o lançamento de uma cartilha educativa sobre o tema e a realização de um grupo de discussão, reunindo especialistas, autoridades, estudantes e representantes da sociedade civil para debater ações de prevenção e enfrentamento.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 mostra que, em 2024, foram mais de 260 mil casos de violência doméstica com lesão corporal dolosa no país, e no total, 747.683 mulheres foram ameaçadas. Houve 555 mil medidas protetivas, mas 18,3% dessas concessões foram descumpridas.

A I Semana de Enfrentamento à Violência Intrafamiliar teve início na segunda-feira (04) com uma mesa de abertura no Grande Auditório da UEPG Central, com a participação das profissionais especializadas Profa. Dra. Maria Cristina Rauch Baranoski, a vereadora Joce Canto e a bióloga Marcela Teixeira Godoy, coordenadora do projeto “O que você estava vestindo?” exposto durante os dias do evento. Nesse primeiro dia, houve também a divulgação da Lei n°15.504/2025 onde fica decretada a obrigatoriedade da Semana Municipal de Combate à Violência Intrafamiliar, conquistada com o apoio da vereadora Joce Canto e também do NEVIN, núcleo promotor do evento.

Na terça-feira (05)  o evento continuou com uma mesa redonda às 19:00 horas da noite no grande auditório da UEPG, com o tema de Enfrentamento da violência intrafamiliar: Mulher, criança e adolescente, pessoa idosa, pessoa com deficiência e comunidade LGBTQIAPN+. Na mesa redonda estiveram presentes a advogada e professora Maria Cristina Baranoski, advogada e professora Dirceia Moreira, pedagogo Guilherme Portela e professora Gislane Rocha do curso de direito. 

Mutirão “Meu Nome, Meu Direito” orienta população trans e não-binária sobre retificação de nome e gênero

Iniciativa oferece apoio jurídico gratuito e reforça a importância da visibilidade e do respeito à identidade de gênero

 

Por: Leonardo Correia

 

   Nesta sexta-feira (8), a Defensoria Pública do Estado do Paraná realizou o mutirão de orientação sobre retificação de prenome e gênero para a população trans e não-binária “Meu Nome, Meu Direito”. A ação ocorreu das 13 às 17 horas  em seis cidades do estado: Curitiba, Cascavel, Paranavaí, Maringá, Paranaguá e Ponta Grossa.

   Em Ponta Grossa,  o mutirão contou com o apoio da Associação Flor de Lis de Direitos Humanos e foi realizado na sede da Defensoria.

   A presidente da Associação Flor de Lis, Marcia Cristina da Silva Rodrigues, relata ser a terceira edição que a associação trabalha junto a Defensoria Pública para promover o mutirão. A iniciativa visa a segurança e o conforto da comunidade trans e não-binária da cidade, ao garantir o direito à escolha e a oficialização do nome social. 

   A Associação Nacional de Registradores de Pessoas Naturais (ARPEN) registrou em um ano (2022-2023) um crescimento de 162% do número de transexuais e transgêneros que retificaram nome e gênero de documentos pessoais em cartórios do Paraná. E a 8ª edição do “Dossiê: Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais Brasileiras” registrou em 14 estados e no Distrito Federal pelo menos 9 mil estudantes trans matriculados com o nome social em 2024. Os estados que mais se destacam entre as matrículas são o Paraná, São Paulo e Rio Grande do Norte.

   O acadêmico de História pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Lorenzo Johann Teleginski, esteve no mutirão e segue em processo de retificação de nome e gênero em seus documentos. Para ele, o mutirão é importante pelo fato de ajudar pessoas em vulnerabilidade socioeconômica. “A Defensoria abrir este espaço para nós da comunidade trans é extremamente especial, porque é um passo para que a gente encontre nossa dignidade enquanto cidadão e cidadã da comunidade dos Campos Gerais”. Porém, Lorenzo também lembra que na cidade ainda existem ressalvas em relação à comunidade e destaca que a iniciativa ajuda a dar espaço para todos.

   Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) indicam que apenas 0,02% das pessoas trans conseguem acessar o ensino superior, refletindo uma evasão escolar significativa.

   Juraci Fatima de Lima, mãe de um homem trans que é acadêmico do curso de Artes da UEPG, Arthur de Lima, descolou-se de Castro até Ponta Grossa para buscar orientação sobre como funciona a mudança de documentos. “A gente fica sem direção, e eu vim aqui para ter um norte”, relata. 

   O Brasil não possui dados oficiais de apoio de familiares a crianças/adolescentes trans, mas há casos que se tornaram conhecidos. Alguns deles são relatados na reportagem “Apoio familiar é essencial para crianças trans crescerem felizes e livres”, produzida pela ANDI – Comunicação e Direitos

   A Defensoria Pública do Estado do Paraná está sempre de portas abertas para as pessoas trans e não-binárias procurarem a retificação de nome e gênero. Apesar disso, a criação de um dia específico com o apoio de associações para atender as necessidades da comunidade cria visibilidade e estrutura, ampliando o acesso a direitos.

 

 

Informações sobre o atendimento da Defensoria Pública de Ponta Grossa:

Horários: Segunda a quinta-feira, das 13h às 17h.

Endereço: Rua Doutor Leopoldo Guimarães da Cunha, n. 300 (a duas quadras do Fórum).

Contato via internet: Plataforma Luna (acesso em dia útil das 7 às 17h).

Ocupação Ericson John Duarte recebe 15 milhões para a reurbanização do local

A conquista da comunidade veio através do programa Periferia Viva do Governo Federal

 

Maria Eduarda Leme

 

  No último dia 28 de julho, foi anunciada uma conquista histórica para a comunidade da Ocupação Ericson John Duarte, de Ponta Grossa. Na data, foi realizado um cerimonial no local para anunciar mais de R$15 milhões para a reurbanização na área do Parque Andorinhas, através do Programa Periferia Viva, que faz parte do novo plano do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal. A verba será destinada para o início das obras do plano de desenvolvimento comunitário, elaborado em 2023, em conjunto com a Prefeitura de Ponta Grossa e a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). 

  A ocupação teve seu início em 04 de dezembro de 2021 e é marcada por uma trajetória de mobilização, de luta por moradia digna e coordenada pelo Movimento Popular de Luta (MPL). No dia 5 de junho de 2024 foi assinado o termo de cessão de uso do terreno onde está localizada a ocupação. A assinatura do termo, em conjunto com a prefeita Elizabeth Schmidt, foi o primeiro passo para a regularização e construção das casas.

Foto: João Bobato

  A verba recebida pelo Governo Federal vai transformar a vida de mais de 200 famílias pelo projeto aprovado no plano PAC. O projeto prevê a realização das seguintes obras: pavimentação de todas as ruas, instalação das redes de água e esgoto, iluminação em LED, construção de áreas de lazer e espaços comunitários. 

  O coordenador da Ocupação, Leandro Dias, comentou sobre a proposta inscrita no plano PAC ter tido êxito e viabilizado a conquista da verba para o início das obras. “Nós colocamos a pauta do direito à moradia na cara das pessoas, pois o problema existia mas ficava debaixo da superfície”, explicou. 

  A moradora Jussara Dias, que está presente na ocupação desde o começo, comentou sobre as dificuldades enfrentadas nos primeiros meses. “Foi muito difícil, por causa da falta de água. Não tínhamos banheiro e nem luz”. Jussara expressou também seu sentimento de felicidade após a nova conquista para os moradores. “Para nós é uma vitória, acredito que agora tudo vai melhorar, a gente sempre esteve lutando pra isso”, afirma. 

  Apenas duas cidades do Paraná foram contempladas com o programa Periferia Viva, Ponta Grossa e Rio Branco do Sul. Ao todo, no Brasil, foram aprovados 49 projetos. De acordo com Dias, ainda não existe data certa para o início das obras. Para que isso aconteça, será necessário que seja realizado o processo de licitação e contratação de empresas, passos estes que dependem de ações da gestão municipal.

Foto: João Bobato

Questões ambientais se tornam foco com a COP30 sediada no Brasil este ano

Assuntos como educação ambiental e a situação atual do país estão sendo amplamente discutidos

 

Pietra Gasparini e Ester Roloff

 

  A Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30) vai ocorrer entre os dias 10 e 21 de novembro na cidade de Belém, capital do estado de Pará. Gilson Cruz, professor de climatologia no Departamento de Geociências na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) explica o que é a COP30. “Ela tem como finalidade promover uma discussão entre os países sobre a produção dos gases do efeito estufa e assim estabelecer metas para conter o problema”, conta. Os gases de efeito estufa retém o calor na atmosfera do planeta, o que contribui para o aquecimento global e as mudanças climáticas.

  O Brasil é um dos países que mais emite gases poluentes por conta do desmatamento, mas também tem grande potencial para a solução desse problema, com manutenção das florestas, utilização de energia renovável e agricultura de baixo carbono,  que é um conjunto de práticas agrícolas que visam reduzir a emissão de gases de efeito estufa. O Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima (SEEG), em seu último relatório produzido em 2023, mostrou que o país teve queda de 12% da emissão de gás carbônico devido à redução do desmatamento na Amazônia. Contudo, o Brasil ainda ocupa a posição de quinto país que mais emite gases de efeito estufa. No Paraná, o estudo mostrou que a maior parte das emissões está relacionada com o uso da terra pela agropecuária, com os principais impactos vindos da criação de animais ruminantes (como bois, vacas e carneiros) e dos resíduos agrícolas.

  Em Ponta Grossa, existem espaços dedicados à educação ambiental e conscientização da população quanto à sustentabilidade. O estagiário da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Gabriel Ferreira Balzer, trabalha no Centro de Educação Ambiental (CEA), criado pela prefeitura em 2021 e localizado no Lago de Olarias, ensinando a preservação do meio ambiente em escolas, empresas e para a comunidade em geral. “É importante que desde a infância o ser humano se perceba como parte do meio ambiente, entendendo que a própria existência é dependente da preservação da natureza”, explica. Gabriel fala que para o bem-estar e a saúde da sociedade precisamos conviver em harmonia com a natureza. “Fazemos palestras e teatros sobre diversos assuntos, como a questão hídrica, o descarte correto do lixo reciclado e, principalmente, as questões climáticas”, finaliza.

 

Educação ambiental na graduação

  Na última semana do mês de julho, foi realizada a 2° Mostra do Setor de Ciências Sociais Aplicadas com o tema: Emergência Climática e o Compromisso das Profissões, no Campus Central da UEPG. A palestra Emergência Climática e Sociedade, que aconteceu no dia 31, abordou as questões ambientais e o papel de toda a sociedade . 

  Atualmente, utilizamos o termo emergência climática, ao invés de mudança climática, para refletir a urgência e gravidade da crise climática. Nesse cenário, o professor Gilson Cruz, adverte que não temos mais tempo para tentar prevenir as emergências climáticas. “As emergências climáticas que estamos vivendo e vamos viver nos próximos anos, já estamos provocando há mais de 100 anos”, afirma. O professor chama atenção para o aspecto da desigualdade e a injustiça social que as questões climáticas colocam em evidência. “Os eventos climáticos extremos não vão atingir todo mundo ao mesmo tempo e da mesma forma, mas vão atingir primeiro e com mais força as pessoas mais vulneráveis, que muitas vezes não conseguem se recuperar”, lamenta.

  Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ou ODS, que também foram abordados no evento, são uma agenda global da Organização das Nações Unidas, ONU, com 17 metas para tornar o mundo mais justo e equilibrado até 2030. Eles tratam de temas como combate à pobreza, educação, igualdade de gênero, meio ambiente e mudanças climáticas. O coordenador da Superintendência Geral de Desenvolvimento Econômico e Social do Paraná, Luiz Paulo Gomes Mascarenhas, explicou que as ODS devem ser praticadas por todos e em todos os lugares. “Muitos dos projetos sobre sustentabilidade são desconhecidos pela população, mas é a partir de ações individuais que o processo começa”, ressalta.

  “Talvez a gente não esteja mais na emergência climática, mas sim na urgência climática. Se nós não tomarmos atitudes para enfrentar e combater o problema, daqui 70 anos não teremos mais como viver na terra”, essa é a visão do professor da Universidade Federal do Paraná, geógrafo e climatologista, Francisco de Assis Mendonça. O pesquisador explica que a vegetação é um dos agentes principais do balanço térmico na terra, e que é necessário pensar em uma reviravolta na agricultura do Paraná, que garanta uma vegetação permanente.

  Além da palestra, o evento contou também com duas mesas redondas tratando sobre a responsabilidade que as profissões têm com a questão ambiental. Os cursos da UEPG envolvidos no evento foram: Psicologia, Jornalismo, Comércio Exterior, Turismo, Economia, Administração, Serviços Sociais e Ciências Contábeis.

 

Palestra “Emergência Climática e Sociedade”, com os palestrantes Dr. Gilson Cruz, Dr. Luiz Paulo Gomes Mascarenhas e Dr. Francisco de Assis Mendonça. Foto: Pietra Gasparini.

Resgate da memória travesti em PG

Por Amanda Grzebielucka

O documentário “Sobre Vivências Travestis” conta a trajetória das primeiras travestis de Ponta Grossa, Débora Lee e Fernanda Riquelme. Nele, as personagens revelam como sobreviveram à repressão, à epidemia de HIV/Aids e às múltiplas violências que marcaram suas vidas, sem ignorar os relatos de amor que receberam ao longo do trajeto e as superações alcançadas.

Crédito: reprodução

O filme documental inicia com a história de Débora Lee, uma das primeiras travestis de Ponta Grossa, que perdeu sua mãe em uma tragédia: seu próprio irmão a matou e, logo em seguida, cometeu suicídio. Depois disso, Débora foi morar com o pai, preconceituoso, que logo percebeu seus trejeitos femininos e a expulsou de casa, com apenas 11 anos de idade. Foi então que ela se mudou para Caxias do Sul, para a casa da irmã. No entanto, seu cunhado e sua irmã também perceberam sua feminilidade e a colocaram para fora de casa.

Lee se viu sozinha e passou a morar na rua. Viveu debaixo de uma marquise por dois meses, comendo restos de lixo e enfrentando o frio. Em uma noite gelada de inverno, passou por ali uma travesti chamada Cassandra Rios, a mulher que a batizou como Débora Lee. Cassandra ofereceu seu lar para que Débora passasse a noite. Inocente, com doze anos, ela aceitou. Ao chegar, percebeu que se tratava de uma casa de prostituição. Débora passou dos 12 aos 16 anos sendo aliciada, e só conseguiu fugir após uma apreensão policial, aproveitando a oportunidade para escapar pela porta dos fundos.

Sua vinda para Ponta Grossa ocorreu no final dos anos 1980, em meio à epidemia da Aids e aos assassinatos. Na época, havia cerca de 80 travestis na cidade; porém, a cada ano, morriam de três a cinco, vítimas da Aids ou de assassinatos.

Lee reforça que sua família não apenas a expulsou de casa, mas também lhe roubou oportunidades fundamentais, como o direito a uma adolescência digna, tempo para descobrir sua sexualidade e a chance de estudar. Ela ressalta que a comunidade quer oportunidades, como trabalho formal, pois sem ele não há condições de sustento e de acesso à educação. Em uma de suas falas, Débora questiona como as travestis podem buscar formação acadêmica se não têm o mínimo para sobreviver.

Lee conta ainda que permaneceu por 22 anos na prostituição em Ponta Grossa, para conseguir se manter, e que sofreu diversas violências, como o episódio em que foi violentada por quatro homens enquanto era ameaçada com uma faca, e a tentativa de assassinato em que levou um tiro no pescoço, cicatriz que carrega até hoje.

A vida começou a mudar quando Lee recebeu uma proposta da Fundação Municipal de Saúde, com o objetivo de prestar assistência à população LGBTQIAPN+, garantindo direitos básicos à comunidade. Débora também conseguiu se formar em Serviço Social no ano de 2022.

A segunda entrevistada é Fernanda Riquelme, a primeira travesti da cidade, que teve uma juventude diferente da de Débora, com o amparo da família e dos professores. No entanto, ela também destaca suas experiências escolares, quando ainda era criança/adolescente e não sabia como se definir. Ela enfatiza que, na época, nem existia a definição de “gay”, e que era chamada de “viadinho”, “bichinha” e “mariconinha”. Em sua fala, é perceptível como essas “brincadeiras” preconceituosas marcaram sua vida. Ao se formar em Administração de Empresas, foi notificada de que não poderia usar vestido e deveria comparecer de terno. Por isso, decidiu não participar da própria formatura, em razão do preconceito.

O documentário também aborda, além da sobrevivência, a vivência das travestis no município. Como a história de superação de Débora Lee, que se formou e hoje tem uma família, e a de Fernanda Riquelme, destacada por seu pioneirismo na cidade,  sendo a primeira a colocar silicone e a ser eleita Miss Gay Ponta-grossense, em 1982.

Fernanda era conhecida pelos shows nas boates e pelo carisma. Porém, no auge de sua beleza, foi condenada por um crime que afirma não ter cometido, e perdeu dez anos de sua juventude na prisão, sendo a única travesti dentro de uma penitenciária masculina. O relato de dor e injustiça, contudo, não fizeram Fernanda perder a força e a esperança.

O documentário tem 41 minutos e está disponível no YouTube. A produção foi realizada pelo projeto de extensão Elos – Jornalismo, Direitos Humanos e Formação Cidadã, do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), em parceria com a ONG Renascer.

Existem alguns pontos, como ângulo e áudio, que poderiam ser melhores, mas isso é compreensível, visto que foi produzido por estudantes em formação. São aspectos menores diante da grandiosidade do documentário. Destaco que a produção acertou ao posicionar a entrevistadora como ouvinte em algumas cenas, entendendo que a comunidade travesti já foi silenciada por tempo demais e que, naquele momento, ouvir era o nosso dever.

Outro ponto importante é o título, que faz um trocadilho com “sobrevivências”, ressaltando que essas pessoas precisavam, e ainda precisam, lutar para sobreviver diante de tanta crueldade. Este documentário é um acerto em cheio, tanto pela importância do tema, ainda pouco discutido, quanto pela urgência de registrar a história da comunidade em um recorte geográfico pouco documentado.

Segundo o dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), o Brasil continua sendo o país que mais mata travestis e pessoas trans. É um exercício para a população ouvir as travestis que superaram a expectativa