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O sistema de cotas raciais é uma política de enfrentamento ao racismo estrutural

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O sistema de ingresso na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) disponibiliza 50% de suas vagas para o sistema de cotas e 10% destas são para candidatos e candidatas autodeclarados negros e negras.  A diretora de Ações Afirmativas e Diversidade da universidade, Cristiane de Souza destaca a importância do sistema para a reparação de um país desigual como o Brasil. “ Ações afirmativas são concebidas como política social e representam uma forma de minimizar as injustiças sociais e combater a discriminação e desigualdades raciais”, salienta.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) contínua do IBGE de 2012, 56,10% da população se autodeclara preta. Dos 209,2 milhões de habitantes do país, 19,2 milhões se assumem como pretos e 89,7 milhões se declaram pardos, sendo, portanto, maioria no país. Contudo, esse dado não se aplica às universidades. Estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada de 2020 mostra que apenas 18% dos jovens pretos e pardos de 18 a 24 anos estão estudando ou terminaram sua graduação. 

O sistema de cotas raciais foi adotado pela UEPG em 2007. Candidatos e candidatas podem preencher a ficha de autodeclaração no momento da inscrição para o vestibular com sua identificação. As cotas raciais implementadas na universidade visam o benefício dos alunos e alunas autodeclarados pretos e pretas para gradativamente aumentar o contingente preto nas faculdades e lutar contra o racismo estrutural presente em nosso país.

 

Imagem: Reprodução ‘Cartilha de Ações Afirmativas’ da Universidade Estadual de Ponta Grossa

#229 Boletim Covid-19 | Ponta Grossa está abaixo da média na vacinação contra Covid-19

 

Boletim Covid-19 – informação contra a pandemia – uma produção do curso de Jornalismo da UEPG.

 

 

Reportagem: Heryvelton Martins
Edição: Eder Carlos
Professores responsáveis: Paula Rocha e Rafael Kondlatsch

Produção jornalística de extensão realizada à distância e inteiramente online, em respeito às normas de segurança e isolamento social.
Imprensa: A veiculação deste boletim é livre e gratuita, desde que mantida sua integridade e informados os créditos de produção.

#228 Boletim Covid-19 | 405 ponta-grossenses foram contemplados com a Lei Aldir Blanc em 2020

 

Boletim Covid-19 – informação contra a pandemia – uma produção do curso de Jornalismo da UEPG.

 

 

Reportagem: Kadu Mendes e Vinicius Sampaio.
Edição: Reinaldo dos Santos.
Professores responsáveis: Karina Woitowicz e Paula Rocha.

Produção jornalística de extensão realizada à distância e inteiramente online, em respeito às normas de segurança e isolamento social.
Imprensa: A veiculação deste boletim é livre e gratuita, desde que mantida sua integridade e informados os créditos de produção.

Desemprego e preconceito racial levam grande parte dos artistas negros à informalidade

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O número de artistas negros que não consegue se sustentar, parcial ou integralmente, com sua própria arte, é incontável. “Em Ponta Grossa não temos visibilidade, espaço e muito menos oportunidade” afirma Elis Rosa, cantora, 19 anos, negra e pontagrossense. Preconceito racial e falta de oportunidades dificultam o acesso ao mercado de trabalho, segundo a artista.

O Brasil chegou a 14 milhões de desempregados no primeiro trimestre de 2021, segundo levantamento divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Faz três anos que eu canto profissionalmente com meu irmão. O mercado de trabalho é complicado porque Ponta Grossa é conservadora. Eu canto reggae que deriva da cultura afro. Não é uma arte que todo mundo procura, consome ou gosta. Toda vez que fazíamos um show, antes da pandemia, rolava cachê, mas nunca foi uma renda fixa. Ainda não consigo viver só da arte” relata Elis. A cantora, também é estudante de técnica em enfermagem e revela que seu maior sonho é viver da música, mas aponta que não é tão fácil. Elis conta que seu plano para o futuro é se estabilizar como enfermeira para conseguir investir no futuro musical.

Profissões ligadas à arte exigem certa sensibilidade, reconhecimento de suas raízes culturais e talento por parte dos artistas, seja das artes visuais, músicos, poetas, dançarinos, escritores e grafiteiros. Elis teve contato com música e arte desde os seis anos. “Sempre que tinha coisas relacionadas a arte e música na escola, era eu que apresentava. Beyoncé e Rihanna são grandes referências artísticas, de representatividade e empoderamento; e meu irmão porque comecei a cantar com ele”, conta a cantora.

Questionada sobre o porquê de muitas pessoas não gostam e não consomem reggae, Elis diz que vê um certo racismo velado. “Pode ter a ver com o gosto, mas aqui em Ponta Grossa não temos visibilidade, espaço e muito menos oportunidade” afirma. “Ouvimos a frase ‘apoie artistas locais’ mas na prática é diferente. Sempre que me convidavam para tocar, antes da pandemia, era na parceira, não tratando minha arte como uma renda e emprego, considerando-a como hobbie”. 

A cantora de reggae conta que foi bem difícil lugares que ela e seu irmão não tiveram que se impor, algumas vezes, decidindo não se apresentar, por não ter o trabalho valorizado. “Representatividade importa. Aqui em Ponta Grossa temos nomes incríveis. Não adianta ser um bom artista se não temos espaço e oportunidades. É uma questão política e social” complementa. 

Instituições privadas e públicas:

O pesquisador Alan Ariê, 24 anos, atua como artista, curador, educador e produtor em São Paulo. Idealizador do projeto Negrestudo: mapeamento de artistas representades pelas galerias de arte de São Paulo, levanta questões como: quais mudanças efetivas podem ser geradas dentro das instituições de arte em pró da reparação racial? Pessoas negras, indígenas, trans e mulheres cis só entram em museus em grande quantidade quando existem questões tratando de suas ausências? A partir dessas reflexões, notou-se a necessidade de fazer um mapeamento que explicitasse esta iniquidade. 

De acordo com o estudo de Alan Ariê, publicado em outubro de 2020, pelo site Projeto Afro, uma plataforma afro-brasileira de mapeamento e difusão de artistas negros/as/es, dos 619 nomes levantados pela pesquisa, apenas 46 pessoas não são brancas. Destas, 27 são pessoas negras – 23 homens e apenas 4 mulheres; 14 são pessoas asiáticas – nove homens  e cinco mulheres; quatro são pardas – todos homens; e apenas uma pessoa é indígena, no caso uma artista mexicana chamada Mariana Castillo Deball, ou seja, não temos indígenas nascidos no Brasil na lista. A diferença racial entre as mulheres é expressiva, pois as quatro mulheres cis-negras representam somente 2,07% entre todas as mulheres, enquanto a única indígena presente representa 0,51%. Os homens cis-negros representam 5,39%, enquanto não há homens indígenas nas galerias de arte de São Paulo.

Os dados da pesquisa de Alan Ariê foram coletados através de uma relação de artistas de 24 galerias de arte da cidade de São Paulo, em um total de 619 nomes listados em um conjunto de tabelas. A primeira tabela contém informações individuais de cada galeria com as especificações de cada artista. A segunda possui especificações gerais quanto ao local de nascimento e a terceira, dados integrais de artistas de todas as 24 galerias. 

Segundo Alan Ariê, nos últimos anos houve um aumento de artistas pretos, pardos e indígenas (PPI) nas universidades públicas e privadas, formando mais profissionais da cultura negros pelos cursos de artes visuais no país.  Esse aumento foi muito estimulado pela política de cotas raciais que reserva vagas para estudantes de escola pública e PPI, no começo dos anos 2000 e tem sua consolidação com a lei nº 12.711  em 2012. A partir do mapeamento de Alan Ariê foi possível levantar outras questões como: será que a presença destes estudantes negres que entraram na universidade estão tendo uma proporcional inclusão no mercado de trabalho e no circuito institucional de arte depois de formados?

O cenário desenhado por Ariê quanto à formação e ocupação de PPI no meio acadêmico também pode ser visto em PG. “Trabalhar como artista independente em Ponta Grossa é complicado, mas há um crescimento da rede de apoio entre os artistas pontagrossenses que nos fortalece”. explica Sava, 21 anos, negra, artista visual e estudante de licenciatura em artes visuais da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). “Acredito que assim como eu consegui muito suporte dentro da academia com a bolsa e com o contato que tenho com professores e outros alunos, fora dela, a rede de apoio dos artistas independentes consegue ajudar pessoas que vêm de outra realidade, que não frequentam o espaço acadêmico”. Sava ressalta que essa rede acaba abrangendo muito mais pessoas, de diversos gêneros e raças.

“Eu tive contato com um coletivo que já não existe mais, o Cru Colab. Fiz exposição em eventos delas. Agora muito do apoio que eu vejo, vem da internet, tanto pelos artistas, músicos, donos de brechó. Então é uma coisa mais informal que eu participo e que eu conheço” conta Sava. O Cru Colab foi uma colaboração de produção, divulgação e organização artística de artistas mulheres pontagrossenses, que tinha como visão, cultura e resistência. Muitos grupos de apoio não conseguem continuar seu trabalho por falta de apoio governamental e até mesmo de público. O coletivo Cru Colab encerrou suas atividades em fevereiro de 2020.

“Eu acredito que é um problema estrutural o baixo reconhecimento e apoio da cultura afro. Dentro do Paraná existe uma abordagem que valoriza muito a presença dos imigrantes europeus e acaba por tentar esconder as pessoas de outras etnias, por exemplo, a negra dos ambientes mais institucionalizados”. Sava explica que essa ausência dos artistas negros no mercado vem do processo de embraquencimento da nossa população, que nos acompanha há muito tempo. Esse processo busca mostrar no Paraná e em Ponta Grossa, uma comunidade branca, sendo que desde o início do povoamento existia pessoas negras, e elas são uma grande parcela da população

.A partir do século 17 e até o fim do século 18 a população de pretos e pardos na capital paranaense era superior a 40%, segundo estimativas. Conforme pesquisa de autodeclaração do censo de 2010, feito pelo IBGE, 3,15% da população paranaense se autodeclara negra e 25,35% parda. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE do segundo semestre de 2019, 57,05% da população brasileira é afrodescendente e a classe média negra já existe há mais de sete décadas. “Mas isso foge dessa estética criada pelo estado e toda região, refletindo nas mais diversas áreas, principalmente nas artes plásticas, onde o que vai ser mais valorizado é a extradição, retratar o imigrante, paisagens e os pinheiros. Deixando de lado outros assuntos e artistas” exemplifica Sava.

“Embora eu não seja apenas a minha raça ou meu gênero, eles são parte de quem eu sou, eles moldam muito das minhas experiências pessoais” responde Sava quando questionada sobre representatividade nos seus trabalhos. A artista visual relata que começou no desenho e na pintura e dentro da universidade teve contato com outras pessoas e outros tipos de artes, e seu trabalho se voltou para estudar a gravura e a pintura principalmente.

Dentre os temas mais abordados pela artista está a visão de Sava sobre a sua própria vida e onde ela se conecta com a de outras pessoas. “Apesar de eu, Sava, ter minha própria história e retratar ela, trabalho com esse espaço de ligação, onde eu sei que o que eu passei, embora seja só meu, é o que outras pessoas passam, já passaram ou vão passar”. explica.

As artes de Sava tratam sobre identidade e reconhecimento de quem somos e quando nos conectamos com o próximo. A artista faz gravuras de artistas negros que tem como referência, sátiras ao governo Bolsonaro e uso de frases como “Comigo Ninguém Pode”, uma afirmação de identidade de Sava. “Eu tento tratar minha arte de uma forma mais leve digamos assim, trazendo não de forma de mostrar minha dor, mas mostrar que eu consegui me tornar essa pessoa e esse crescimento é importante, valorizar meu próprio crescimento é o que faz com que eu amadureça e meu trabalho amadureça também” relata a artista.

Artistas Negros Históricos

Segundo informações do site e jornal Bem Paraná, em pesquisa realizada por Adegmar Silva Candiero, assessor de Promoção da Igualdade Racial de Curitiba, o primeiro negro representado nas artes plásticas foi um negro trabalhador em uma obra de Debret, em 1827. A pesquisa de Candeiro se estende ao apresentar outras representações e artistas que compuseram o cenário de artes no Paraná, ao todo são 10 personalidades negras que compõem o cenário construído pelo autor da pesquisa

João Pedro, o Mulato, considerado como o primeiro cartunista do Brasil. Não se sabe se João Pedro, o Mulato, nasceu em Curitiba ou Paranaguá. Foi, entretanto, na capital paranaense que trabalhou e morou a maior parte de sua vida, no início do século 19. As caricaturas que produzia retratavam de forma satírica a vida colonial do Paraná e de Santa Catarina. Algumas de suas telas foram descobertas pelo filósofo curitibano Newton Carneiro, em Lisboa, Portugal. 

Maria Nicolas foi professora, escritora, poetisa, historiadora, contista, dramaturga, teatróloga, novelista, biógrafa, pesquisadora e pintora. Publicou os livros Almas das Ruas, Porque me orgulho de minha gente e Cem anos de vida parlamentar e ainda recebeu vários prêmios como de Professora do Ano, da Academia Feminina de Letras do Paraná, do Centro de Letras do Paraná, do Centro Paranaense Feminino de Cultura, também Medalha de Ouro, nos VII Jogos Florais de Curitiba e o Título de Vulto Emérito da Câmara Municipal de Curitiba. 

Na poesia Laura Santos (1919-1981) tinha um estilo peculiar, sensível, pendendo entre o tom romântico e o erotismo. Foi uma das fundadoras da Academia José de Alencar, em Curitiba, palco de vários encontros e saraus de poesia. Publicou diversos de seus textos nos jornais da capital e lançou três livros: Sangue tropical, Poemas da Noite e Desejo. Seu jeito independente e o estilo poético vanguardista lhe renderam o apelido de Pérola Negra.

Já na música, Saul da Silva Bueno, teve uma carreira de mais de 50 anos dedicados ao trompete e à divulgação do estilo que amava. Foi proprietário do ‘Saul Trumpet Bar’, onde se apresentaram os ícones da cena instrumental. Tocou com diversos músicos, entre eles Waltel Branco, Mauro Senise, Hermeto Pascoal, Leny Andrade, Arismar do Espírito Santo, Proveta, Hélio Brandão, Maurílio Ribeiro, sendo convidado a integrar o naipe de metais do renomado Ray Charles. 

 

#227 Boletim Covid-19 | Tibagi tem maior incidência de mortes por Covid-19 na região

 

Boletim Covid-19 – informação contra a pandemia – uma produção do curso de Jornalismo da UEPG.

 

 

Reportagem: Manu Benício
Edição: Daniela Valenga
Professores responsáveis: Cíntia Xavier e Marcelo Bronosky

Produção jornalística de extensão realizada à distância e inteiramente online, em respeito às normas de segurança e isolamento social.
Imprensa: A veiculação deste boletim é livre e gratuita, desde que mantida sua integridade e informados os créditos de produção.

#226 Boletim Covid-19 | Farmacêuticos são contra kit Covid aprovado pela Câmara

 

Boletim Covid-19 – informação contra a pandemia – uma produção do curso de Jornalismo da UEPG.

 

 

Reportagem: Amanda Martins
Edição: Eder Carlos
Professores responsáveis: Cíntia Xavier e Muriel do Amaral

Produção jornalística de extensão realizada à distância e inteiramente online, em respeito às normas de segurança e isolamento social.
Imprensa: A veiculação deste boletim é livre e gratuita, desde que mantida sua integridade e informados os créditos de produção.

#225 Boletim Covid-19 | 65 mil ponta-grossenses foram vacinados

 

Boletim Covid-19 – informação contra a pandemia – uma produção do curso de Jornalismo da UEPG.

 

 

Reportagem: Mariana Gonçalves e Victoria Sellares
Edição: Daniela Valenga
Professores responsáveis: Karina Woitowicz e Rafael Kondlatsch

Produção jornalística de extensão realizada à distância e inteiramente online, em respeito às normas de segurança e isolamento social.
Imprensa: A veiculação deste boletim é livre e gratuita, desde que mantida sua integridade e informados os créditos de produção.

Democracia e Direitos Humanos | ABRIL E EXCLUSÃO PELO ESTADO | Editorial: Hebe Gonçalves

Editorial por Hebe Gonçalves, coordenadora do Democracia & Direitos Humanos, na Rádio Comunitária Princesa (FM 87,9 e internet), nesta quinta-feira, 22/04/2021.

 

 

Democracia & Direitos Humanos — projeto de extensão ligado à Agência de Jornalismo, do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), em parceria com a Rádio Comunitária Princesa (FM 87,9 e na internet). Você confere ainda nas redes sociais do Curso de Jornalismo da UEPG.

 

 

Locução e edição: Isadora Ricardo
Produção e edição final: Professor(a) Hebe Gonçalves e Sérgio Gadini

Coordenador de História do Museu do Holocausto de Curitiba fala sobre memórias do Nazismo e paralelos com a atualidade

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O Brasil tem mais de 334 células neonazistas em atividade, segundo um levantamento da antropóloga Adriana Dias, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Desde o início do Governo do presidente Jair Bolsonaro em janeiro de 2019, várias personalidades ligadas ao mandato foram acusadas de promoverem gestos, mensagens e discursos ligados aos supremacistas brancos. A equipe de reportagem do Elos conversou com Michel Ehrlich, coordenador do departamento de História e mediador educativo no Museu do Holocausto de Curitiba, sobre o cenário politico social brasileiro em relação a atos supremacistas. Ehrlich é mestre em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) com a dissertação “Filhos da Shoah: Memórias e significações na comunidade judaica paranaense do pós-guerra”. Desenvolve pesquisas nas áreas de autoritarismo, memória, educação e identidades. É autor de “O Macabeu: imigração e identidade judaica”, publicado em 2017. A entrevista também trata sobre o trabalho realizado pelo Museu do Holocausto de Curitiba, primeiro e único no Brasil.

Em 24 de março, o Museu do Holocausto de Curitiba twittou que “é estarrecedor que não haja uma semana que o Museu do Holocausto de Curitiba não tenha que denunciar, reprovar ou repudiar um discurso antissemita, um símbolo nazista ou ato supremacista. No Brasil, em pleno 2021”. Como você avalia o cenário político social do Brasil atualmente em relação a atos supremacistas?

Esse tweet foi por ocasião do gesto feito pelo ex-assessor Filipe Martins. Não foi o único caso que o Museu se posicionou via Twitter recentemente, mas foi o que teve maior repercussão, provavelmente por ser o mais grave. É preciso diferenciar dois fenômenos que se relacionam mas são distintos. Um deles é a deturpação da memória do Holocausto, que é alegações como uma que também o Museu se posicionou no Twitter, comparando o Lockdown em Araraquara com um campo de concentração. Nesse caso, é uma deturpação da memória. Transforma o Holocasuto e o Nazismo como o símbolo máximo do mal e associado àquilo com o qual não se está concordando. E essas comparações têm sido recorrentes. O outro fenômeno, ainda mais grave, em que se enquadra o caso do Filipe Martins, se trata efetivamente de apologias ao Nazismo e a Supremacia Branca. No caso do ex-assessor, foi o gesto que nos últimos anos foi apropriado por grupos Supremacistas Brancos, como diversas notícias e estudos mostram. Diante disso, o Museu, como uma instituição que se volta para a construção de uma memória do Holocausto, se vê na obrigação de se posicionar perante a esses acontecimentos. Adoraríamos não gastar nosso tempo com esse tipo de coisa. A função do Museu não é ficar respondendo pessoas que fazem esse tipo de apologia. Nós gostaríamos de estar focados 100% em uma educação de Direitos Humanos, combate ao racismo e apoio à democracia. Mas infelizmente, diante dessas situações, o Museu se vê na obrigação ética de se poscionar e deixar claro não só o repúdio, mas quais são as relações desses gestos com o passado com o qual o Museu do Holocausto lida, quais os vinculos que se estabelecem, o que significa, qual a história desse gestoe porquê foi apropriado pelos supremacistas brancas.

E em qual contexto esses gestos, declarações e mensagens supremacistas estão inseridas?

Várias pesquisas em Ciências Políticas demonstram que se inserem em uma estratégia chamada dog whistle, ou em português, apito de cachorro. Que é quando um político ou personalidade famosa emite alguma mensagem, seja um gesto ou expressão, que para maior parte das pessoas não significa nada, mas que inflama e empodera grupos específicos que são os receptores dessas mensagens. No caso do ex-assessor Filipe Martins, sequer foi o primeiro gesto feito por ele. Já tivemos uma publicação dele de um trecho do poema que abria o manifesto do terrorista que abriu fogo contra uma mesquita na Nova Zelândia, Brenton Terrant. O poema é anterior ao ataque, mas colocando no contexto, as quantidades de coincidências mostra o que significa. Isso se enquadra no conceito do dog whistle, porque são situações em que facilmente é fácil alegar “mas veja bem, não é isso que quis dizer”. E os casos de Martins não são isolados no governo. A mais explícita delas, que até deixa de ser um dog whistle, porque quase todos perceberam, foi o caso do então Secretário Especial de Cultura, Roberto Alvim, em janeiro de 2020. Em um pronunciamento, ele copiou as palavras e a estética de Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista. O próprio discurso dele foi compatível com tudo o que Goebbels afirmava. Esse tipo de fenômeno está mais recorrente na atualidade e é preciso deixar claro que é preocupante que qualquer pessoa faça um gesto desses, mas é ainda mais grave quando é alguém que tem um cargo no governo ou uma pessoa influente em redes sociais.

 

Espaço no Museu do Holocausto de Curitiba expõe propagandas do Governo Nazista, área chefiada por Joseph Goebbels. Foto: Cássio Murilo

Como vocês mesmo destacaram, nos últimos meses tivemos vários exemplos de atos supremacistas e xenófobos por parte de membros do governo e famosos. Por que você acha que isso acontece?

Eu acredito que vários fatores provocam esse fenômeno. Um deles é uma forma como a memória do Holocausto passou a ser representada como o Nazismo sendo o simbolo máximo do mal. Então, aquilo que não gosto eu passo a dizer que é nazista. O que não significa que paralelos e relações históricas não devam ser feitas, pelo contrário, não podemos tratar o Holocausto e Nazismo como algo completamente separado da humanidade. Não é um fenômeno histórico, mas um fenômeno humano. Um segundo fator relevante, como mostram estudos como o da antropóloga Adriana Dias da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é um aumento de sites e células neonazistas e de supremacistas brancos. Muitas delas surgem no ambiente ambiental e depois saem de lá. Elas permanecem marginais na sociedade como um todo, mas crescem em uma velocidade alarmante. Estamos em um ambiente político que tem se mostrado propício para esse tipo de ação, marcado por ataques àquilo que é entendido como diferente. Ainda existe um certo rechaço social a símbolos como a suástica, porém, quando um grupo neonazista ou supremacista branco emite uma mensagem que é completamente coerente com o ideal deles, mas sem esses símbolos que deixam explícito o vínculo com essas ideias racistas, xenófobas, homofóbicas etc, que encontram uma certa ressonância social e que são vistas como mensagens legítimas no debate político. Nós temos que ver como algo preocupante o fenômeno de concordar com certas afirmações, mas também a normalização dessas afirmações. Quando digo “não concordo, mas isso faz parte do debate político”, eu estou admitindo que esse é um discurso aceitável e do qual podemos concordar em discordar. Quando estamos em discursos de ódio, não existe concordar e não discordar, eles não podem existir! E um terceiro fator que é efetivamente a penetração dessas ideias em pessoas por forte influência no governo e na mídia. É muito preocupante que vemos isso em deputados, assessores e secretários que reverberam essas ideias, sobretudo no círculo em torno dos filhos do Presidente Jair Bolsonaro. Nós temos muito essas teses que não são de fato exclusivas dos supremacistas brancos neonazistas, mas são compartilhadas por esses grupos políticos e por isso estabelecem certos vínculos. Não é uma relação tão evidente, por isso nem todas as pessoas que reproduzem essas mensagens são filiados a grupos neonazistas e supremacistas, mas demonstram ideias iguais, que fazem com exista essa proximidade entre os grupos. 

Como podemos reconhecer e identificar um discurso supremacista?

Evidentemente é mais fácil à medida que ele deixa de ser o dog whistle. Então quando nós vemos diretamente menções a símbolos e falas completamente preconceituosas, é fácil identificar. Muito mais difícil, é justamente essa estratégia empregada pelas mensagens acobertadas. Não tem uma fórmula que eu possa dizer “assim nós identificamos”. Eu que estudo esse tema, tem coisas que me passam batido, porque eu não conheço todas as simbologias e expressões usadas por esses grupos, que se modificam muito rapidamente. O que eu diria é que quando surge alguma suspeita, devemos ficar de olho. Obviamente não é clavar que algo é isso, se não entramos em outras teorias da conspiração, mas é considerar o contexto e as coincidências que acontecem. Quando uma mesma pessoa faz um gesto que supostamente está ajeitando o paletó, mas é um gesto que os supremacistas brancos fazem, e a mesma pessoa já twittou um poema e citou uma expressão em latim usada por neonazistas, começa a ser coincidências demais. Então é preciso reparar nisso e termos os cuidados necessários, principalmente não achar que esse tipo de ideia desapareceu e que se limita aos símbolos. Infelizmente, não precisamos da suástica para afirmar que algo é próximo ao Nazismo, mas sim, analisar qual o conteúdo da mensagem.

Qual o trabalho desenvolvido pelo Museu do Holocausto de Curitiba?

O Museu do Holocausto de Curitiba foi criado no final de 2011 e surge por iniciativa de integrantes da comunidade Judaica de Curitiba. Ele é o primeiro e único Museu dedicado ao tema no Brasil. Temos o espaço expositivo, que em um contexto normal é o principal atrativo. Fora de pandemia, recebemos anualmente cerca de 20 mil visitantes, dos quais, a maioria são grupos escolares. As visitas são mediadas por uma narrativa coerente da exposição e do projeto do Museu. Temos alguns pilares fundamentais que estruturam o funcionamento, não só da exposição, mas de tudo o que fazemos. Não é um Museu sobre a morte, mas que fala sobre a vida das pessoas que passaram pelo Holocausto. Evitamos trabalhar o Holocausto como um acontecimento quantitifado, os números não são o foco, mas as pessoas, rostos, nomes e trajetórias individuais, porque é a história delas que permite gerar uma empatia entre visitante e o tema que está sendo abordado. Um terceiro elemento é que o Holocausto não é tratado como um evento fora da história e como se os nazistas fossem demonios que simplesmente por serem malvados, fizeram um genocidio. Isso não significa que o que aconteceu tenha sido menos grave, mas a questão é que não precisamos de monstros para praticar monstruosidades. O Holocausto foi um ato humano. E é justamente isso que permite que relacionamos o Holocausto com o nosso presente. Tudo aconteceu a menos de 80 anos e a forma como nós pensamos como humanidade e nos relacionamos não é radicalmente diferente do que permitiu o Holocausto. Por isso, o aprendizado serve para pensarmos sobre intolerância religiosa, racismo, homofobia, machismo, entre outros. No sentido de pensar que os fatores que fizeram o Holocausto ser possivel, são fatores que estão fazendo agressões hoje em dia serem possíveis. A medida que entedemos o que foi o Holocausto como um fenômeno histórico e humano, podemos entender melhor o nosso presente. E um melhor conhecimento, nos dá melhores ferramentas para combatermos o que está acontecendo.

 

        Estudantes de jornalismo da UEPG em visita mediada ao Museu do Holocausto de Curitiba em 2018. Foto:Cássio Murilo

Qual é a importância de preservarmos a história e a memória?

Quando estamos falando em memória, falamos em algo que está em constante construção, então não podemos dizer que preservarmos a memória. O passado não se modifica, mas a forma como nos relacionamos com esse passado sim. Então a memória não é o passado, mas como nos relacionamos com ele no presente. Estamos constantemente construindo a memória, porque acreditamos que é relevante para os dilemas que enfrentamos na atualidade. Espero que chegue um dia, apesar de não ser otimista, em que se modifique radicalmente a forma como nos ligamos ao passado e possamos dizer que não tem nada a ver com o presente, mas ainda não é possível. Acreditamos que o passado do Holocausto nos dizer muito sobre hoje em dia. Então a forma como queremos lembrar esse passado é de uma forma que nos dê ferramentas para a promoção dos Direitos Humanos, para a construção de uma cultura democrática e para o combate das intolerâncias e preconceitos. Não é que os nazistas estão nos ensinando algo, mas somos nós que estamos nos relacionando ao passado e atribuindo essa noção à memória.

E quais os paralelos que podemos fazer entre o passado do Holocausto e do nosso presente?

Infelizmente são muitos. Uma coisa importante é lembrarmos que o Holocausto é parte da história e, como qualquer outro genocidio, é um processo. Por isso, sempre temos que ter em mente em que momento do processo histórico estamos falando. Por exemplo, quando falamos sobre o Holocausto estamos falando sobre queima de livros e censura? Sim, podemos e devemos relacionar isso a censuras de informações que ocorrem hoje em dia. Isso não significa que qualquer censura seja um Holocausto, até porque quando se queimava livro na Alemanha Nazista, ninguém falava em genocidio naquele momento. Porém, olhando agora, sabemos que foi um momento importante para possibilitar o genocidio. E é assim que podemos fazer paralelos, como o controle de informação e também casos de racismo e intolerância religiosa. Outro paralelo são os projetos e práticas autoritárias, que não precisam chegar ao nivel do controle autoritário nazista para que possamos, a partir do passado, refletir sobre o presente. Até em casos mais explicitos, de práticas efetivamente genocidias, porque o Holocausto não foi o primeiro e nem o último. Então, é possível fazer paralelos em diferentes momentos históricos e camadas, se pensarmos em todos os processos que comuniram no Holocausto, desde as primeiras falas autoritarias do Partido Nazista, passando pela censura até chegar ao Genocidio.

Como o Museu está atuando durante o momento de pandemia?

O Museu do Holocausto de Curitiba está fechado desde março de 2020 e não tem uma previsão, em curto prazo, de reabrir. Mesmo em momentos que legalmente poderíamos abrir nosso espaço físico com adaptações, escolhemos não abrir, por conta do perigo representado pelo vírus. O Museu só irá reabrir em um momento que sentimos que existe segurança para os visitantes e para a equipe. Mas isso não significa que o trabalho parou. Por ser um Museu, a exposição é sempre a parte mais visível, mas existem outros trabalhos, como construção de acervo, pesquisa histórica e catalogação de histórias de sobreviventes do Holocausto, que permanecem sendo feitas, mesmo com a equipe em home office. Além disso, o Museu na pandemia intensificou as atividades nas redes sociais. Antes do vírus, elas já eram mais do uma rede de divulgação e método de atrair visitantes, mas um meio para compartilhar nossas mensagens e ideais. Durante a pandemia, elas se tornaram a principal rede de contato entre Museu e público, com publicações regulares que seguem as diretrizes educativas da nossa equipe. Temos também uma série de eventos online realizados, tanto organizados pelo Museu, como por instituições parceiras. Existe  La Red Latinoamericana para la Enseñanza de la Shoá (LAE), ou Rede Latinoamericana para o Ensino da Shoá em português, que é uma rede formada por diferentes museus memóriais na região que tratam sobre o Holocausto e que promovem uma série de eventos online. O Museu do Holocausto de Curitiba continua ativo de diferentes formas, o que está fechado é a exposição. 

 

Acompanhe o Museu do Holocausto de Curitiba online:

Site: https://www.museudoholocausto.org.br/

Facebook: https://www.facebook.com/MuseuShoaCuritiba/

Instagram: https://www.instagram.com/museudoholocausto/

Twitter: https://twitter.com/MuseuHolocausto 

#224 Boletim Covid-19 | Socorristas relatam rotina com Covid-19

 

Boletim Covid-19 – informação contra a pandemia – uma produção do curso de Jornalismo da UEPG.

 

 

Reportagem: Manu Benício
Edição: Eder Carlos
Professores responsáveis: Karina Woitowicz e Rafael Kondlatsch

Produção jornalística de extensão realizada à distância e inteiramente online, em respeito às normas de segurança e isolamento social.
Imprensa: A veiculação deste boletim é livre e gratuita, desde que mantida sua integridade e informados os créditos de produção.