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Entrevista Dia da Mulher em PG com Jennifer Dias

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Na última semana foi comemorado o dia da mulher, que para muitos representa uma comemoração, mas que para o movimento feminista significa luta e resistênica. A entrevistada desta semana é Jennifer Dias, graduada em história pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e integrante da Frente Ampla Democrática da cidade. Ela discorre sobre a movimentação em PG e sobre os últimos acontecimentos nacionais. 

 

1) O que o dia da mulher, que foi na última semana , representa para a luta feminina?

Jennifer: Acredito que existem duas leituras que mais se sobressaem. A primeira delas, enormemente difundida, é a de um dia da mulher comemorativo, em que se exalta qualidades como “força” e “empoderamento”. Os locais de trabalho preparam um café diferenciado ou entregam algumas caixas de bombom, o marido entrega flores, e por aí vai. O grande problema dessa leitura vendida pelo mercado é de estabelecer qual o padrão de mulher que deve ser exaltado. E geralmente é a mulher que nos outros 364 dias do ano, precisa mover moinhos e enfrentar todas as dificuldades estruturalmente impostas para sobreviver. O conceito de empoderamento é muito perigoso, pois surgiu a partir de um contexto onde as mulheres precisavam individualmente se responsabilizar por questões de saúde ou de política pública. Então, nesse sentido, quem é a mulher forte? É aquela que, pela ausência de políticas públicas, enfrenta duplas ou triplas jornadas de trabalho para dar conta daquilo que uma sociedade não é capaz de se responsabilizar. É a mulher trabalhadora, mãe, que cuida da família e que passa por uma vida absurdamente difícil. Mas será que realmente deveria ser assim? A vida sempre precisará ser mais difícil para as mulheres para que em apenas um dia do ano, nós tenhamos a decência de se importar com as mulheres? É claro que não existe apenas um padrão de mulher, somos muito diferentes entre nós e cada uma sabe o que enfrenta dia após dia. Mas meu ponto sobre essa leitura romantizada do sofrimento é de que (e aí entra na segunda leitura, mais crítica, sobre o dia da mulher), é muito danoso para a mulher. Pois a vende uma narrativa de que ser forte faz parte do seu “instinto maternal” e de que ela deve continuar lutando sempre, muito mais do que os homens, para conseguir viver tranquila. O verdadeiro significado do 8m é de que 129 operárias estadunidenses de uma fábrica têxtil que morreram carbonizadas, vítimas de um incêndio intencional no dia 8 de março de 1957, em Nova York. E o mercado propositalmente dissociou o dia da mulher desse evento. Justamente para continuar construindo esteriótipos em cima de quem deve ser a mulher numa sociedade desigual. 

2) O que você achou da cobertura local sobre o dia da mulher?

Jennifer: Acredito que além da mídia hegemônica, houve muitos movimentos buscando construir uma leitura do dia 8 mais voltada pra esse lado crítico que citei na primeira questão. Mas creio que muito do que vi se refere ao próprio meio que convivo e as relações que nutro. No geral, mais do mesmo, comemorações irrisórias que não levam a conscientização real da luta feminista.

3) O que você acha sobre a transformação do feminismo em comércio na cidade? 

Jennifer: O 8M que é vendido pelo mercado não é feminista. É no máximo um liberalismo mesquinho disfarçado de feminismo, que vende insígnias prontas, com uma ou outra imagem completamente esvaziada de seu real sentido. É o caso, por exemplo, da Frida Kahlo, que acredito que grande parte do público que consome produtos ligados à ela, não tem real dimensão de quem foi essa grande mulher. É aquela imagem do empoderamento que citei também na primeira questão, em que muitas vezes o famigerado “meu corpo minhas regras” é vendido, mas sem nenhuma proposta concreta de libertação humana. Enfim, cabe a nós estarmos sempre conscientes desses movimentos que são realizados pelo mercado, pela mídia, e buscar abertura para dialogar com mulheres que acreditam em si mesmas, que constroem uma imagem de si positiva, e trazê-las mais próxima das lutas coletivas que buscam sobretudo construir uma sociedade em que todas sejamos livres. É também fundamental criarmos espaços em que mulheres reais falem sobre pautas reais. O feminismo não é uma criação acadêmica que deve chegar pronto às mulheres, mas sim uma luta construída a partir das nossas próprias demandas e que deve ser transformado em um conjunto de transformações que nos garantam equidade de gênero e liberdade.

4) Quais ações a cidade de Ponta Grossa deveria tomar para que as mulheres tenham seus direitos garantidos? 

Jennifer: Eu acredito que essa é uma questão bem complexa, mas acredito que em nível institucional, seria importantíssimo o foco nas políticas públicas pautadas democraticamente, que não se reduzissem apenas ao mês de março. Existem inúmeros movimentos sociais que estão constantemente cobrando dos poderes públicos políticas efetivas para assistir mulheres com suas inúmeras questões, que sofrem as mais variadas violências de gênero. É o caso, por exemplo, de ampliar e valorizar espaços como o conselho municipal dos direitos da mulher, que está ativamente pensando nessa questão.

5) Falando um pouquinho sobre o caso do Arthur do Val, como que ter deputados ou pessoas no poder que pensam dessa forma pode afetar a sociedade e principalmente as mulheres?

Jennifer: Arthur do Val é um homem que mobiliza inúmeros sentimentos enraizados na sociedade. Ele não é uma ferida ou um sintoma, mas sim o sistema patriarcal de sua forma mais pura e cristalina. Ele representa o que grande parte dos homens pensam sobre nós. O impacto disso é muito grave, pois estamos falando de homens que se sentem autorizados a ditar como nós mulheres devemos viver, pensar e agir. E se não seguirmos as regras, eles se sentem autorizados a nos violar, nos matar. Ver um homem como esse na política institucional, assim como ver o governo de Bolsonaro como um todo, é algo que precisamos derrotar através da nossa luta.

Consumismo Desvirtua o foco do Dia da Mulher

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No dia 8 de março é comemorado o Dia Internacional da Mulher, definido pela Organização das Nações Unidas em 1975. Desde então, a data intenciona ser um marco para que se discutam as desigualdades e as violências sofridas pelas mulheres. No entanto, principalmente nos últimos anos, é possível perceber que a data vem sendo transformada em comercial, focando no lucro dos estabelecimentos que utilizam o pretexto para promover seus produtos.

A data foi criada pela ONU com o intuito de fortalecer as pautas de cunho feminista que buscavam a liberdade, a igualdade e a valorização da mulher. Atualmente a data ainda carrega esses ideais, no entanto, percebe-se que o comércio cada vez mais tenta transformar isso em lucro, ao mesmo tempo em que mostra-se aliado à luta. Tem-se como exemplo uma rede fast food que no Dia da Mulher em 2018 divulgou que toda a equipe naquele dia seria feminina, o que causou polêmica em torno das contradições sobre a forma como essa decisão valoriza as mulheres.

A professora de história, Patrícia Carla Melo Martins, observa que se o comércio se apropria de datas como essa, o foco, ao invés de contribuir para a formação de consciência, incentiva o consumismo e a propaganda. Para a professora, é necessário que o Dia Internacional da Mulher seja lembrado e honrado de uma maneira responsável, sem desvirtuar o sentido da data. 

Bruna Alves Lopes, também professora de História e integrante do Laboratório de Estudos de Gênero Diversidade Infância e Subjetividade (LAGEDIS), diz: “Quando nós tiramos o caráter político desse tipo de data deixamos de perceber as violências do dia a dia e focamos em comprar e receber flores”. Contudo, as professoras concordam que o dia 8 de março ainda é uma data importante para a valorização da mulher e de suas lutas.

 

Imagem: Maria Eduarda Kobilarz

8 de março não é uma data comemorativa!

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No dia internacional da mulher, é fundamental a mobilização de toda a sociedade para o verdadeiro significado dessa data. Muito mais que parabéns ou felicitações às mulheres, o 8M representa um dia de luta, dentre muitos outros dias que batalhamos incansavelmente pelo direito de sobreviver e de viver. 

Sobreviver porque somos alvo direto de uma estrutura patriarcal que através do machismo, racismo e lgbt+fobia. Estrutura essa que é dia a dia intensificada pela política do ódio sustentada por Bolsonaro e seus cúmplices. 

O Brasil mata uma mulher a cada 2 horas. É o país que mais mata mulheres trans e travestis no mundo. A violência contra mulheres com deficiência também é expressiva e cresceu aproximadamente 70% durante a pandemia. E no que se refere a violência obstétrica no geral, 65,9% das vítimas são mulheres negras. 

Desde nossos primeiros segundos no mundo, já somos subjugadas a uma série de opressões. Ditam o que devemos usar, como devemos nos comportar, com quem precisamos nos relacionar. Ditam quais vagas de emprego vamos ocupar, quais padrões do corpo devemos atingir. Não pode ser negra, não pode ser uma mulher com deficiência, não pode ser gorda, não pode decidir expressar-se de outra maneira que não a de mulher cis. Cabelo curto nem pensar, precisa usar roupas apertadas, madeixas arrumadas, maquiagem. Precisa cozinhar bem, não pode ser puta, mas também saber precisa agradar o marido. 

Algumas mulheres já nascem em classes que tornam possível fugir de determinados padrões. Estas, dizem que “meu corpo, minhas regras” é o mote do dia. Saem, bebem, se relacionam com quem bem entendem. Dirigem, trabalham, estudam nas melhores universidades, atingem postos de trabalho “bem sucedido”. No entanto, emplacam uma política individualista ao não compreender que a questão de classe é central no debate sobre a equidade de gênero. Sem a intersecção entre gênero, raça e classe, não teremos unidade para confrontar uma estrutura misógina, capacitista, racista, machista, lgbt+fóbica. 

Essa intersecção é vital para combater e destruir a política de ódio que nos tem como alvos diretos. É preciso unificar o #ForaBolsonaro, mas organizar a luta para derrubar também o bolsonarismo. Não podemos esquecer que esse governo ainda conta com mais de 30% de apoio, mesmo após todas as suas declarações violentas. 

A luta pela derrubada de Bolsonaro é uma luta feminista, anti-imperialista, anticapitalista, democrática, antirracista e anti-LGBT+fóbica. Contra a violência, a fome, a carestia, a violência, por saúde, moradia, por nossos direitos sexuais e reprodutivos. 

Nossa luta é pelo SUS e os serviços públicos e gratuitos. É contra o desemprego e a construção de uma sociedade justa e igualitária. 

Para nós, o #8m é muito mais do que flores e parabenizações. É um dia de reforçar que a auto-organização das mulheres em união com diversos movimentos sociais é a chave para a construção de um mundo sem Bolsonaro e o bolsonarismo.

Jeniffer Dias (integrante da Frente Ampla Democrática (FAD) e professora de História

Ensaio: Ocupação Andorinhas

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Fotos: David Candido

Falta de políticas públicas provoca déficit habitacional em Ponta Grossa

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Após a ação da polícia, que despejou 60 famílias de uma ocupação no início de fevereiro, movimentos sociais questionaram a Prefeitura de Ponta Grossa sobre políticas habitacionais no município. Segundo o manifesto de solidariedade às famílias desalojadas, o governo local não apresenta projetos relacionados à habitação popular há dez anos, problema que foi agravado com a chegada da pandemia. 

De acordo com a assistente social, com experiência em políticas públicas, Sandra Maria Scheffer, existem muitas dificuldades enfrentadas pelas famílias de baixa renda e sem teto. Dentre elas estão a alta demanda habitacional decorrente da desigualdade social, programas habitacionais que entram em ascensão e logo após em declínio e, em alguns desses programas, critérios socioeconômicos que excluem determinadas famílias.

A assistente social afirma que a política habitacional é de responsabilidade do Programa Habitacional para famílias de baixa renda em Ponta Grossa, que atua na cidade há 32 anos. “Isso indica fatores como a forma de gestão que altera a cada quatro anos, a propositividade ou não de novos programas e a oferta ou falta de recursos nas três esferas da união”, explica Sandra. Esses elementos são indispensáveis para definir a qualidade das políticas habitacionais no município.

O governo municipal pretende realizar uma reforma administrativa que prevê a extinção da Companhia de Habitação de Ponta Grossa (Prolar). Para Scheffer, existe uma demanda habitacional crescente e represada e com o encerramento dessas políticas a defasagem habitacional será progressiva. “Sou desfavorável à extinção  do órgão, deveriam estimular, alterar, cobrar, mas não encerrar as atividades”, complementa a assistente social.

Segundo a Companhia de Habitação do Paraná, dados de fevereiro de 2021 revelam que há um déficit habitacional em Ponta Grossa de 23 mil pessoas, cerca de 12% do total do Estado. De acordo com o Plano Estadual de Habitação de Interesse Social (PEHIS), o município está na quarta colocação do Paraná com maior defasagem habitacional.

 

Imagem: Catharina Iavorski

 

 

Ocupação Ericson Duarte é a maior existente em Ponta Grossa

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700 famílias em seis acres de terra. Cerca de 200 crianças. Casas em construção desde o dia 04 de dezembro de 2021. O terreno que antes estava abandonado, hoje pertence à ocupação Ericson Duarte, fundada pela Frente Nacional de Luta (FNL) em Ponta Grossa. 

Foto: Valéria Laroca

Vista panorâmica da ocupação Ericson Duarte

 

Conforme o líder da FNL, Leandro Santos Dias, o movimento de ocupação do local surgiu após a criação do cursinho popular Emancipa. “Do cursinho no Lagoa Dourada dava para ver todo o terreno. Algumas pessoas perguntavam sobre a questão de moradia conosco. Então uma das nossas companheiras propôs a ação e no final de 2021 ocupamos o terreno.” explica Leandro. 

No início os terrenos eram distribuídos em lotes de 10×20, porém por conta da alta demanda de famílias a divisão foi alterada para 10×10. Além disso, algumas casas precisaram ser construídas nas ruas. Neste momento a ocupação está com lotação máxima. 

Foto: Catharina Iavorski

A alta demanda de famílias alterou a divisão dos terrenos

Organização 

A equipe que administra a ocupação, conta com a coordenação,  formação escolar, comissão da infraestrutura e comissão de finanças. A diretoria de formação escolar visa instituir um programa de alfabetização, já que a maioria dos moradores interrompeu os estudos no ensino fundamental. A comissão de infraestrutura organiza o acampamento. Já a área financeira fica responsável por fazer contato com colaboradores para conseguir cestas básicas, materiais para construção e outros suprimentos. 

Situação atual

A ocupação Ericson Duarte pretende ter sua regularização aprovada pela Prefeitura de Ponta Grossa. Segundo Leandro, a validação permite que as famílias tenham melhor acesso a direitos básicos, como água e luz. 

As moradores, por conta da superlotação, construíram casas nas ruas/ Foto: Catharina Iavorski

A bandeira representa a liderança da ocupação/ Foto: Catharina Iavorski

Cerca de 200 crianças vivem na ocupação / Foto: Valéria Laroca

As casas construídas pelos moradores são  feitas de madeira e lona/ Foto: Valéria Laroca

Tudo por um lar: Famílias abordam dificuldades enfrentadas em ocupação de PG

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Desde dezembro de 2021, mais de 700 famílias encontram na ocupação Ericson John Duarte a chance de ter um espaço para construir uma casa própria. O terreno, localizado no Parque das Andorinhas, no Rio Verde, foi planejado justamente para a moradia das famílias cadastradas pela Companhia de Habitação de Ponta Grossa (Prolar). Porém, desde 2011, ano em que as obras começaram, o local não possui investimentos do poder público. O que resultou em um amplo espaço esquecido pela companhia. 

A Frente Nacional de Luta Campo e Cidade (FNL), coordenada por Leandro Dias, organizou a ação junto às famílias ponta-grossenses sem casa na ocupação do local. Sem apoio da prefeitura, das companhias de água (Sanepar)  e energia elétrica (Copel), as famílias sofrem com a negligência e carência dos recursos básicos. 

Qual é o perfil das famílias?

Membros de quatro famílias se mostraram receptivos para falar sobre a situação que enfrentam na ocupação Ericson John Duarte com o Projeto Elos. Todas abordaram as dificuldades de moradia e financeira que as levaram a migrar para o local. Outro ponto em comum e de destaque entre os relatos é a indignação de serem comparadas a desocupados, visto que a maioria que reside no terreno ocupado pela FNL possui emprego. A pandemia impôs uma situação a estas famílias em que muitas precisaram escolher entre pagar o aluguel ou alimentar os filhos. 

Confira as entrevistas:

“Lutar pelo o que é nosso por direito e ter um teto para morar!”

Diego de Lima Ribeiro, de 31 anos, afirma sua luta diária. O motoboy e participante ativo da FNL revela a dificuldade financeira da família, que é composta por ele, a esposa e dois filhos. O que já era difícil, com a pandemia apenas piorou. Ele, que era microempreendedor, se viu sem serviços por quatro meses. Tempo suficiente para não conseguir pagar os 600 reais de aluguel da casa em que residia. “Antes eu não conseguia comprar uma bolacha para os meus filhos, pois não sobrava dinheiro, agora sobra, já que não pago aluguel”, destaca o morador da ocupação.

Com cadastro ativo na Prolar há mais de sete anos, Diego demonstra indignação em não conseguir sequer um terreno para conseguir construir um lar para a família. “Eu quero construir uma casa para os meus filhos, pois sei que se eu morrer, a casa vai ser deles”, revela. O desejo de Diego para o futuro de sua família é ter uma casa própria, lutar pelas pessoas que se encontram na mesma situação: ter um teto para morar. Ele também espera que as pessoas entendam a real situação de quem ocupa um terreno que é deles por direito. “Em vez das pessoas criticarem, por que não fazem alguma doação? Ou só fiquem cada um no seu canto que já ajuda”, afirma Diego sobre a falta de sensibilidade das pessoas que não vivem o mesmo que as mais de 700 famílias da ocupação.

“A gente veio pra cá pra tentar uma vida melhor, pra comprar um remédio, dá mais conforto pras criança, meus dois netinhos”. Dona Terezinha de Lima Nascimento, 65 anos, aposentada e residente da ocupação desde dezembro de 2021, nos conta um pouco mais sobre sua rotina e seus obstáculos. O relato comum entre eles é o desejo de um futuro melhor para a família e,  principalmente, para as crianças. Doente e com dificuldade de locomoção, dona Terezinha descreve o desamparo que sofre junto aos filhos. “Eu me vi na rua, não posso comprar remédio. Ou compra remédio, ou compra comida.”, enfatiza. 

Foto: Bettina Guarienti

Dona Terezinha, 65, com uma de suas netas em frente a residência recém construída na ocupação Ericson John Duarte.

 

“E têm luz, água, aluguel. Eu como sou uma pessoa honesta gosto de já pagar, não deixar acumular”

Com cadastro ativo há cerca de 20 anos na Prolar, Terezinha aponta a falta de eficiência do programa. “ Todo ano eu ia lá, desde quando meu filho era pequenininho, e nunca podiam arranjar casa pra mim, nada até agora.” Ao ser questionada sobre a rotina na ocupação, dona Terezinha descreve as dificuldades impostas pelo local. “Não temos banheiro, no começo era sem água, sem luz, sem nada. Tanto que eu pensei várias vezes em desistir. Mas daí pra onde que eu vou agora?”. O drama da falta de assistência vivida pelas famílias sem apoio do governo municipal, sem saneamento e sem qualquer visita por porte dessas entidades, dificulta ainda mais a sobrevivência na ocupação.

Elisiane Alves Correia, de 45 anos, nos revela que além dos obstáculos vividos no dia a dia, outro ponto prejudicial são as fake news e palavras desrespeitosas ditas sobre os moradores do local. “Muitos falam que nós somos um bando de desocupados, que nós somos um bando de vagabundos. Mas não é verdade, nós precisamos muito daqui sabe?”, desabafa. O sonho e direito da casa própria comum entre milhares de brasileiros, encontra nessas ações uma forma de ser realizado. 

Foto: Bettina Guarienti

Elisiane Alves Correia, 45, abre a porta de sua casa, onde mora com o marido e o filho mais novo.

 

“Fiz uma casinha, não é uma mansão, mas é um lugarzinho meu”

Foto: Bettina Guarienti

A moradora mostra o lugar ao qual dormia, antes de conseguir construir a sua casa.

A locação, ocupada pelas famílias, é um terreno irregular que estava nas plantas da Prolar há anos para construção de casas populares. Entretanto, nunca foi construída nenhuma residência no lugar. Dona Elisiane nos relata quando conseguiu uma casa pelo programa, mas que devido à localização, precisou sair do local. “Eu cheguei a pegar a casa da Prolar, mas onde eu morava era muito perigoso.” O medo foi devido aos homens que ameaçavam as filhas de Dona Elisiane, para que elas fossem obrigadas a se relacionarem com eles. “Tive que sair porque falaram pras minhas meninas que se elas não fossem deles, eles iam matar elas, daí eu tive que sair correndo.”

Catharina Silva, de 56 anos, conta que tem diabetes e, dessa forma, é dependente da insulina e consequentemente da energia elétrica. “Eu tomo remédio, tenho problema de diabete tudo, tomo insulina então sempre tem que ter a geladeira”, aponta a moradora. Como a ocupação não possui energia elétrica, a idosa deixa a geladeira na casa da cunhada para poder conservar o remédio. Companheiro de Catharina, Olivio Machado, de 58 anos, tem cadastro na Prolar há cerca de 10 anos e assim como nos outros relatos, ele também não teve retorno do programa. Ambos possuem o mesmo objetivo, terminar de construir a casa, para terem um lugar para chamarem de seu. 

Foto: Bettina Guarienti

O casal, Catarina e Olavo, posam ao lado da futura residência, que ainda está em construção.

Dirigente da Frente Nacional de Luta explica princípios do movimento

Na noite do dia 18 de fevereiro a Frente Nacional de Luta (FNL) ocupou um terreno no Parque dos Sabiás, em Ponta Grossa. Segundo o líder da organização, Leandro Santos Dias, o terreno estava “desocupado há décadas” e a ocupação foi um meio de denunciar o desmonte da Prolar, Programa de Habitações na cidade de Ponta Grossa.

A polícia chegou a ir até o local e deflagrou uma operação para realizar a desocupação da área, o que foi visto como inconstitucional pelo dirigente da FNL de PG, Leandro Dias, que explicou que a ação não tinha mandado de reintegração. 

A reintegração de posse e as outras ocupações que ocorrem na cidade vem causando preocupação entre os moradores: “tenho medo que ocupem minha casa”, contou uma moradora de Guaratuba, que tem um residência na cidade. Leandro explica que não é bem assim: “só vamos ocupar terrenos que não estejam cumprindo com função social social”. O termo usado pelo dirigente remete ao inciso XXIII da Constituição Federal, que explica que ela cumpre sua função quando “é explorada de forma sustentável, mesmo que para moradia; utiliza adequadamente os recursos naturais; e respeita a legislação trabalhista.”

Leandro também explica que terrenos pequenos não são ocupados. Segundo ele, casas ou apartamentos desocupados não correm o risco de uma ocupação, pois a ideia da FNL é apoiar, não tirar a moradia das pessoas.

Em Ponta Grossa, o alto custo do aluguel faz com que as pessoas busquem alternativas para sobreviver, isso quando tem dinheiro suficiente para alugar uma moradia. Atualmente, a FNL atende pessoas que não tem moradia, ou porque nunca foram contempladas com alguma política de moradia, ou não conseguiram pagar o aluguel.

 

 

Polícia despeja 60 famílias em Ponta Grossa

 

O despejo ilegal de cerca de 60 famílias ocorreu na madrugada do dia 05, no bairro Cará-Cará em Ponta Grossa, PR. As famílias haviam ocupado a área da Companhia de Habitação (COHAPAR) no fim da tarde do dia 04 deste mês. A ocupação foi coordenada pela Frente Nacional de Luta Campo e Cidade (FNL). O espaço pertencia até 2021 à PROLAR (Prefeitura de Ponta Grossa). 

A operação policial contou com aproximadamente 200 policiais que cercaram a área, quando as pessoas dormiam sob lonas, desmontaram as barracas e retiraram as famílias do local. Ali estavam crianças, jovens, adultos, idosos, refugiados, gestantes e pessoas com deficiência. O coordenador da FNL em Ponta Grossa, advogado Leandro Dias, e a advogada Gislaine Indejejczak, foram detidos e, no batalhão da PM, assinaram termo circunstanciado, sendo liberados na manhã de sábado.

Vale lembrar que o grupo político que administra a cidade repete a promessa de um condomínio para idosos em Ponta Grossa em disputas eleitorais desde 2016 (também em 2020) e, até o momento, não teve nenhuma iniciativa concreta que amenize o problema habitacional também aos idosos. 

Dados da própria COHAPAR, publicados em fevereiro de 2021, indicam um déficit habitacional de 23 mil unidades só em Ponta Grossa. A cidade ocupa o quarto lugar entre os municípios com maior déficit de moradias no Paraná (atrás apenas de Curitiba, Londrina e Paranaguá), onde a estimativa é de que faltam cerca de 512mil unidades. Ponta Grossa registra um déficit de 12% do total do Estado. A FNL publicou em nota divulgada no dia 6 de fevereiro, em redes sociais que o objetivo da ocupação é denunciar o desmonte da PROLAR e a venda das áreas públicas destinadas a programas habitacionais populares em Ponta Grossa, para a iniciativa privada, com a finalidade da construção de condomínios particulares ignorando dessa maneira a necessidade de moradia de mais de 23 mil pessoas, que atualmente se encontram cadastrados na fila da PROLAR.

Entidades e movimentos sociais cobram transparência das informações e ações por parte da prefeitura e do estado no que diz respeito às políticas públicas de moradia popular e, também questionam quem determinou a operação policial, sem processo e autorização judicial, com cerca de 200 soldados, em poucas horas, para desocupar a área tomada por famílias sem teto. 

 

Imagem: Reprodução Brasil de Fato

TVE: audiência pública debate ameaças à emissora e informações distorcidas do Município

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Será realizada hoje, dia 17, às 19 horas, no Sindicato dos Servidores Municipais (Rua Santos Dumont, 1234, Centro), uma audiência pública para debater o projeto de Lei 339/2021. O texto, apresentado à Câmara Municipal pela prefeita Elizabeth Schmidt, poderá extinguir a TV Educativa de Ponta Grossa (TVE) por falta de pessoal e recursos, já que a retirada do apoio à Fundação Educacional de Ponta Grossa (Funepo), responsável pela gestão da emissora pública na cidade, decretará o fim das transmissões em um curto espaço de tempo.
Na ocasião, membros da Frente em Defesa da TVE PG, lideranças políticas e representantes dos trabalhadores e trabalhadoras da emissora, pretendem mostrar que a Prefeitura não vem sendo honesta quando alega que a emissora dá prejuízos, não é importante e não merece existir.
Conforme dados da própria Frente, a TVE economizou nada menos de R$ 500 milhões durante a pandemia de Covid, ao exibir o programa “Vem aprender”, que ofereceu aulas aos alunos e alunas da Rede Municipal de ensino entre 2020 e 2021. Também foram economizados outros R$ 4 milhões que precisariam ser pagos às agências para produzir os conteúdos exibidos no mesmo programa e período.
Outra questão a ser destacada é que o Município tem oferecido informação incompleta no que se refere aos cortes que pretende promover na TVE, pois, conforme o projeto de Lei, “o pessoal efetivo e comissionado não será afetado” pelo eventual fechamento da TVE, uma vez que será realocado junto com os recursos, em outras secretarias e autarquias. Ou seja, na prática não haverá economia alguma.
A participação é aberta ao público em geral e haverá, inclusive, um momento de fala para quem se inscrever.


Serviço
Audiência Pública contra o fechamento da TVE PG
Quando: hoje, 17 de fevereiro de 2021
Horário: às 19h
Local: Sindicato dos Servidores Municipais (Rua Santos Dumont, 1234, Centro)